Transgressor e à frente de seu tempo: impressões do filme “O funeral das rosas”

O Ipê acompanha a quarta edição do Kinoprestes, sessão que exibiu Funeral das Rosas, um clássico queer da contracultura japonesa.

por Carlão

A quarta edição do Kinoprestes – sempre às terceiras terças-feiras do mês – contou com exibição do filme O Funeral das Rosas, realização de 1969 de Toshio Matsumoto (1932-2017). Também professor de artes e artista, o diretor concentrou-se primeiramente em curtas-metragens para, então, brindar-nos com um clássico da contracultura japonesa e um poderoso retrato do cinema queer. Tudo isso em 1969. Com alta carga de experimentação e ousadia, o efeito mostrou-se sábio e de vanguarda.

Como de costume, a sessão ocorreu na sede brasiliense do Partido Comunista Brasileiro (PCB-DF) e foi seguida por intenso debate acerca do filme e dos assuntos ligados, de forma direta ou não, às temáticas socialistas e comunistas. Registro aqui breves impressões acerca da obra exibida.

Sinopse

Eddie, uma jovem mulher trans, trabalha num clube noturno em Tóquio, chamado Genet. Com reminiscências das gueixas, sobretudo no tocante ao entretenimento sexual, ela fornece serviços aos clientes do clube. Concomitante à sua atividade, tem um relacionamento com um homem chamado Gonda, proprietário do clube e traficante, vivido por Yoshio Tsuchiya (de Os 7 Samurais), um dos poucos atores profissionais do elenco. Uma grande rivalidade entre Eddie e Leda, também uma mulher trans, é desenvolvida. Madame e gerente da casa noturna, ela, da mesma maneira que Eddie, relaciona-se com Gonda. Com o avanço da trama, o passado, o presente e a psique de Eddie vão sendo continuamente desvelados.

Diversidade de gêneros e não-linearidade

Entraremos, assim, em um típico folhetim de conflitos amorosos?

Longe disso. Em um período central da história, 1968, passado no momento da contracultura no Japão, Matsumoto cria, camada após camada, um filme que percorre inúmeros gêneros. Não se fixa em caixinhas representativas de categorias A, B ou C.

Ao contrário, à medida que a metragem corre, as identidades dos segmentos passam através do cômico, do sensual, do engajado, do questionador e até mesmo do tétrico. Indo e voltando: a ordem cronológica não é importante aqui. Ficamos ajustados ao final. A estética é típica da Nouvelle Vague. O movimento francês teve influência decisiva na história da arte cinematográfica – e no Japão não foi diferente.

Mas, muito além dessa clara associação, os elementos inseridos na trama são complexos, transgressores, experimentais e, sobretudo, inovadores. Matsumoto – adepto da disputa entre objetividade e subjetividade dentro da arte – injeta, de forma brilhante, sobreposições dessa dicotomia ao expor uma metalinguagem que favorece a leitura de um filme dentro de outro filme. Isso ocorre de duas maneiras principais:

  1. Ora por meio da imitação de um documentário sobre a cena LGBTQIA+ (para usar o termo mais moderno, inexistente na época), com entrevistas de pessoas dessa comunidade – muitas vezes, isso significa entrevistas com os próprios atores do filme.
  2. E ora por meio da representação da própria ficção do filme em si. Essa confusão sempre abre espaço para explorar diversas propriedades artísticas, e ela é especialmente bem feita neste filme. A relação entre a ficção e a ficção dentro da ficção rompe, por excelência, com padrões da representação estética da realidade e ganha força ao marcar o toque do autor/realizador.

Esse e outros tipos de experimentação confundem várias vezes o público, fazendo-nos imaginar as plateias da época tentando extrair seu sentido. Mas este é satisfeito, acredite, principalmente ao seu final.

Para o diretor, romper das regras gramaticais da 7ª Arte também é parte desse jogo e contribui para o sentido da obra. Realiza-se a contraposição do mundo real e objetivo à subjetividade, distinção que vai correndo em paralelo à psique dos personagens. Nada banal, nada previsível. Situar-se é um desafio. Apenas um, dos vários que Matsumoto transmite.

Cada um com sua máscara

Outro aspecto fundamental e constante na condução de Matsumoto tem início quando Eddie entra numa exposição de artes e escuta mensagens sobre máscaras, temática constante na condução de Matsumoto. São máscaras que as pessoas vestem, e que, despidas delas, revelam personalidades distintas. Ou, quando retiradas, escondem apenas outras máscaras, que se revelam num processo ‘ad infinitum’ e dialético. Por esse tom, o próprio filme representa a representação das máscaras, ao expor as sobreposições entre ficção e documentário, entre filme e vida filmada.

No filme, encontramos toda uma sequência poderosa e aderente à temática das máscaras, muito bem lembrada por um camarada, no decorrer do debate, após o término da sessão: frequentem o Kinoprestes – os debates são cerejas no bolo.

Explico: os integrantes da equipe dos documentaristas, seus técnicos, diretores, atores e figurantes promovem um consumo circular de marijuana e logo em seguida entram numa orgia e despem-se das suas vestimentas, enrolando-se uns nos outros através do sexo. A analogia com as máscaras fica automática. Elas desaparecem e os indivíduos estão em seus respectivos estados desnudos, desprovidos de suas cortinas psíquicas. Ou ainda estariam vestidos? A que ponto de nudez pode chegar a psique humana? Há um ponto significativo de personalidade para além das diversas máscaras que se sobrepõem às roupas, ao estilo, à pele e ao corpo?

Ao fundo desses questionamentos apenas insinuados, rock and roll dançante dos anos 60. A influência ocidental no Japão é marcante, dado o ‘Zeitgeist’ da época. Da mesma forma, temos algumas passagens em que manifestações políticas contrárias a essa inundação americana do pós-guerra são mostradas.

Enfim, toda uma gama de questionamentos acerca de drogas, sexo, rebeldias e políticas, típicas da época, estão muito bem tematizadas. Assim, por exemplo, um retrato dos Beatles, num belo quick flash, mostra-se parte importante da engrenagem.

Outra sequência, que considero a mais emotiva e que tem grande conexão com os motivos do desfecho, mostra Eddie, um adolescente descobrindo sua sexualidade ao espelho. Neste ambiente e nesta bela sequência sensual, ele é interrompido e repreendido violentamente por sua mãe, que constantemente ri dele, especialmente quando o jovem diz que não há necessidade de lamentar a ausência do pai, pois ela teria a ele. Um sensível aceno a uma parte importantíssima do filme para resolução da trama principal.

Bastante característica e influente também é a luta corporal entre Eddie e Leda: as rivais pelo amor de Gonda. Sem a menor dúvida, temos aqui prenúncios das sequências de luta de Kill Bill, de Tarantino. A Nouvelle Vague, aqui japonesa, também é inspiração para o diretor norte-americano. A exagerada caracterização e o sangue jorrando, no filme de Matsumoto, também conservam e inspiram o autor de Pulp Fiction. Assim como alguns trechos serviram de inspiração para Kubrick e seu Laranja Mecânica. Nada como descer às raízes.

Cabe ainda acrescentar que, em toda fita, os conflitos são reais e expostos de maneira explícita ou implícita, por vezes até chocantes, mas julgamentos, tomadas de posições e juízos de valor ficam ausentes na narrativa do cineasta japonês Matsumoto. Muito positivo.

Inspiração na mitologia

O filme inspirou-se no mito grego de Édipo Rei. Isso se constata ao longo do 3º ato da fita, apesar de, anteriormente, algumas pistas sutis com ‘flashbacks’ parecerem sugestionar algumas resoluções. O que torna a experiência fascinante não é saber disso de antemão, mas sim se deliciar com a complexidade adicionada pelo realizador, sobretudo misturando os aspectos subjetivos à objetividade da ficção, conforme descrevi anteriormente.

Profundidade narrativa conseguida pela imersão de personagens da comunidade LGBTQIA+, que adentraram nesta inspiração do mito grego, com mais descidas aos abismos e poços, cavando-os e permitindo mais e mais revelações. Este foi o trunfo do diretor neste filme que é recheado de experimentalismos e que não é fácil de destrinchar.

Satisfação ao final

Algumas considerações finais são interessantes de serem ressaltadas: Eddie, protagonista trans, foi vividx por Pîtâ, que, por seu aspecto andrógino, foi ator em diversos filmes que necessitavam deste tipo de atuação. Chamado de Peter, em função da pegada à la Peter Pan.

O restante da trupe, à exceção do ator que performa Gonda, são amadores. Alguns, porém, são pessoas importantes da vida real asiática. Aparecem como eles mesmos. Como um locutor (âncora de um telejornal) e um crítico cinematográfico da época, famoso no Japão. Os dois têm cenas rápidas, mas interessantes.

Como Matsumoto usa a estética da Nouvelle Vague, abundam jump cuts (cortes abruptos entre planos) e faux ’raccords (transições que escapam às lógicas esperadas). Temos até uma homenagem ao clássico Psicose, de Hithcock, no segmento final. Dica: banheiro.

Há também momentos de slasher tétrico: eles estão bastante exemplificados nesta mesma parte.

A fita tem o uso repetido na trilha sonora do instrumento órgão. Às vezes com tons melancólicos, outras com estilos circenses nos momentos de humor. O todo fica, então, bem alimentado, e é caracterizado por esses tons.

O título em japonês é Bara no sôretsu, e o termo Bara significa literalmente rosas. Mas é historicamente usado pejorativamente no Japão para homens gays. Sôretsu é funeral.

Os planos, ora fechados nas boates, ora abertos nas externas, caminham repetindo o mote da Nouvelle Vague. Os closes percorrem também os personagens, destacam-se planos detalhes e, inclusive, temos um belíssimo plano-sequência, ao final, numa descida de um personagem, exemplificado na sua figura literal e simbólica ao inferno.

Mas não se prendam ao analisar a fita somente devido à estética vinda do movimento cinematográfico francês que revolucionou o cinema. Matsumoto, com seus dualismos que se superpõem, vai muito além. Encerro, assim, com as palavras finais mostradas nos créditos:

“O espírito do indivíduo alcança seu máximo absoluto através da constante negação”. Querem algo mais dialético, camaradas?

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