Sofrimento psíquico na era do neoliberalismo: uma entrevista com Heribaldo Maia

O filósofo e historiador Heribaldo Maia lança em Brasília seu novo livro, “Neoliberalismo e sofrimento psíquico: o mal-estar nas universidades”. Confira sua entrevista exclusiva para O Ipê sobre saúde mental, ensino superior e militância

por Guilherme Monteiro

Historiador de formação, mestrando em filosofia e um ávido estudioso da psicanálise, o pernambucano Heribaldo Maia desponta como um dos importantes quadros dessa nova geração de comunistas do Brasil. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e com um livro que acaba de ser publicado, o pernambucano nos recebeu para uma entrevista onde conversamos sobre saúde mental, educação e militância.

Revista O Ipê: Como surgiu a ideia de escrever o livro “Neoliberalismo e sofrimento psíquico: o mal-estar nas universidades”?

Heribaldo Maia: Essa ideia surgiu da observação e da vivência. Eu estudava a noite, turno onde tem as pessoas mais precarizadas, porque elas têm que trabalhar e estudar, um corre gigantesco. A maioria desse pessoal sempre estava reclamando de estresse e ansiedade por conta da universidade, chegando até a adoecer. Tínhamos professores que passavam uma quantidade de trabalhos e leituras sem uma compreensão da realidade dos alunos e simplesmente davam falta se a pessoa se atrasasse, mesmo que por conta do emprego. Tive um companheiro que participou do processo de ocupação das universidades em 2016 e acabou se suicidando já próximo de apresentar o trabalho de conclusão de curso. Não à toa, uma frase que a gente ouvia muito das pessoas, e que eu coloco no livro, é “isso aqui é uma máquina de moer gente”.

Fora isso, eu mesmo passei por um processo de adoecimento durante a universidade. Até certo momento eu estava indo bem, com boas notas, mas depois passei a sofrer muito de estresse e ansiedade, tendo crises depressivas com mais frequência. Além disso, estava um pouco desiludido com o curso de história, pois gostava muito de Teoria da História, mas esse tema era muito pouco abordado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Como eu sempre gostei de fazer disciplinas de outros cursos, fui frequentando o departamento de filosofia, e lá conheci o professor Filipe Campello, que me apresentou os autores da Teoria Crítica, o que também me levou ao tema do livro. Como já militava, me peguei pensando: “poxa, estou passando por essa situação e estou vendo aqui autores falando sobre depressão e ansiedade de maneira crítica sem ser aquela coisa meio autoajuda”. Me capturou rápido, e a partir daí comecei a estudar firmemente o tema. Portanto, foi uma espécie de acaso teórico por um lado, observação de colegas, amigos e companheiros de luta e uma própria experiência de adoecimento também.

RI: Como você enxerga essa lógica neoliberal presente na universidade, pela qual, ao mesmo tempo em que se exige uma produtividade grande, deixa-se o aluno isolado tanto no processo de formação quanto no de pesquisa?

HM: Acho que um ponto importante é perceber que o neoliberalismo continua sendo o capitalismo de sempre, só que com técnicas mais aperfeiçoadas de controle das pessoas. O capitalismo sempre foi, desde que nasceu, um sistema de que depende de um nível de exploração das pessoas por conta de sua própria estruturação. Marx já falava isso. Ele é ardiloso, por assim dizer. Só que para isso, ele também precisa criar formas de controle para que essa exploração não se transforme em organização política de uma classe que é explorada, ou seja, você precisa criar uma espécie de cálculo: mais exploração da classe trabalhadora com o menor custo político para a classe burguesa.

Então se arrumam mecanismos que operam para tentar mascarar um pouco a realidade, como é o caso da ideologia, discutida por Marx. Mesmo autores não marxistas também propõem essa discussão, como o caso de Foucault, sobre a questão da disciplina. Dito isso, neoliberalismo é uma forma ainda mais aperfeiçoada de se tentar ao máximo fazer com que as pessoas não se revoltem dentro do capitalismo. Ou seja, o neoliberalismo é mais do que uma nova forma de gestão econômica e política: é uma forma de criar pessoas, criar sujeitos, criar uma subjetividade, uma mente para o mundo neoliberal.

Isso se expressa muito bem na universidade, afinal, como a universidade consegue fazer com que o aluno seja muito produtivo ao mesmo tempo em que está muito isolado? É um ultraindividualismo típico da organização neoliberal e que tem a ver com a própria forma como a produtividade se arraiga como cultura. Então, por exemplo, essa cultura da produtividade nos diz que se pode ser quem quiser e que se pode ser feliz o tempo todo. Surgem slogans da publicidade como “nada é impossível”; “seja você mesmo”; “tudo está ao alcance de suas mãos, só depende de você” etc.. Alguns autores liberais, claro, não excluem que existiram diferentes pontos de partida e que algumas pessoas terão caminhos mais difíceis que outras, mas isso não significa que você não tenha potencial de “chegar lá”! Essa famosa frase! Lá onde? Ninguém sabe, mas tem de se chegar lá.

Uma estratégia muito comum ao neoliberalismo, e que aparece de forma bem explícita na universidade, é a ideia de que, existindo ou não algum tipo de incentivo, você produz o seu caminho através de um processo contínuo de autoavaliação do qual só depende de você. Por exemplo, o que é construção do currículo lattes? Basicamente, é um sistema de avaliação de sua produtividade e determina quem você é enquanto estudante, enquanto pessoa que está fazendo esse caminho acadêmico. Mas mesmo que você não queira seguir carreira acadêmica, só se formar e sair da faculdade, o neoliberalismo se assegura de deixar claro que você pode se prejudicar no mercado de trabalho se não aderir ao produtivismo. É necessário “investir em si mesmo”, se capacitar porque o mercado de trabalho pede pessoas capacitadas. Ou seja, não é tão simples assim entrar, se formar e sair direto para o mercado de trabalho.

Como essa gestão é individual, ninguém precisa colocar uma arma na sua cabeça porque você sabe que você precisa fazer isso para ser considerado bem-sucedido. Contudo, a realidade é que, independente do quanto você queira, isso não significa que você vai conseguir, mesmo que faça tudo que esteja ao seu alcance. A universidade então se torna um ambiente que, assim como o mercado trabalho e a sociedade, reproduz uma espécie de luta de todos contra todos, de uma concorrência desenfreada, onde por mais que sejamos colegas, também estamos concorrendo por um lugar no futuro.

Ainda mais grave é a situação das pessoas que entraram, por exemplo, com políticas de cotas, que geralmente são pessoas com condições de vida mais precarizadas e que, além de ter que fazer todo esse percurso, ainda precisam arrumar dinheiro para se alimentar na universidade, para conseguir, às vezes, nem o livro, mas pagar uma xerox, já que por vezes nem mesmo têm computador. Eu mesmo fiquei com o computador quebrado por muito tempo, usando o da universidade.

No caso das universidades privadas, onde o interesse pela pesquisa costuma ceder espaço para a preparação para o mercado de trabalho, soma-se a isso tudo a preocupação de pagar pelos seus estudos enquanto se tem de lidar com um ideal de produtividade relacionado à capacitação para se conseguir um emprego de boa remuneração.

Tudo isso contribui para a produção de uma espécie de impossibilidade de se criar vínculos de solidariedade entre as pessoas. Significa então que esses vínculos não existem? Eles existem, mas não são capazes de fazer frente à lógica individualista. Em última instância, para você conseguir ter chances de em algum momento conquistar seu ganha pão, garantir um teto, comida e algum tipo de lazer e descanso, você precisa passar por toda essa maratona de concorrência absoluta.

RI: Muitas pessoas enxergam em seu trabalho acadêmico uma forma de transformar o mundo. Isso dialoga muito com as ideias de uma pessoa que também se organiza em movimentos e partidos políticos. Como você enxerga a relação entre essas duas esferas para que se opere, de fato, uma transformação em nossa sociedade?

HM: A militância é um espaço bastante complexo. Por um lado, estamos ali, naquele ambiente de organização política, partilhando a possibilidade de um futuro diferente, de um outro mundo. Nós somos vinculados por esse horizonte de alguma forma, mas ao mesmo tempo também somos sujeitos deste mundo. Quando digo que nós somos sujeitos quero dizer que a gente também reproduz este mundo. O fato de se saber essas articulações entre capitalismo e subjetividade, entre capitalismo e ideologia, não faz com que a gente esteja fora da lata de lixo da ideologia. A gente também está dentro dela, mas de maneira tensionada. Isso cria um problema para as organizações.

Recomendo ler o livro “Arquitetura de Arestas”, de Edmilson Paraná e Gabriel Tupinambá. Eles abordam algo que eu já vinha pensando, mas que conseguiram colocar de maneira muito melhor. Foi ótimo! Facilitou muito o trabalho (risos)! Para eles, as organizações são esses espaços onde nós compartilhamos essa tensão de sermos sujeitos deste mundo e ao mesmo tempo sermos sujeitos de um mundo que está por vir, porque nós ainda o estamos construindo.

Isso significa que nós, enquanto sujeitos políticos, passamos por um processo de precarização violenta e inserção nessa lógica de concorrência absoluta, de precarização das relações de trabalho. Somos inseridos nos modos de vida que nos impõe formas de adoecimento, formas de sofrer, e que, às vezes, acarretam inclusive uma falta de tempo para a própria militância.

Lutar para transformar o mundo tem uma capacidade terapêutica em algum modo, então quando a gente está militando, a gente acaba dando sentido à nossa existência, a gente termina produzindo vínculos que nos retiram desse processo de individualização absoluta e nos colocam num processo de coletividade. Porém, como um desafio para o nosso tempo, também cabe às organizações pensar sobre como lidar com os militantes em adoecimento, que às vezes não estão em adoecimento por conta da organização, da tarefa política, mas estão em adoecimento por conta de todas essas determinações sociais que nos impõe essa cultura de produtividade em todos os campos da vida. Como lidar, por exemplo, com a precariedade financeira e material, com a falta de lazer, com a falta de ócio que os militantes vivenciam no seu dia-a-dia. Isso impacta na militância.

Militante não descansado não tem como militar, essa é a real! Então, como as organizações podem gerir isso? Eu acho que não basta somente a gente sonhar e tentar partilhar esse horizonte de um mundo novo. A gente também precisa realizar um pouco desse mundo novo hoje, dentro das organizações. Isso é algo que eu inclusive quero trabalhar num futuro, até como uma espécie de continuação desse livro, sobre como a gente pode produzir espaços de não produtividade dentro da militância. Em vários momentos, a gente está dentro da militância para cumprir uma tarefa, ir para a sede do partido para fazer uma reunião, para produzir algo, ou seja, tudo ainda muito ligado a uma lógica de produção.

Claro que a produção em si não é algo necessariamente negativo. É importante que a gente produza algo, mas a gente não pode se embebecer nessa lógica da produtividade que a gente também reproduz nesses espaços. Ou seja: cabe também pensar em espaços de socialização inúteis, por assim dizer. Reunir todos os camaradas, sei lá, para assistir um filme qualquer que não seja um filme cabeça, para assistir um filme de boneco; ou para praticar um esporte juntos, um jogo; criar um espaço de produção artística, e assim por diante.

Esses espaços que vão produzir um lugar não para necessariamente produzir amizades, mas onde o militante vai poder dizer “estamos aqui juntos apenas desfrutando nossa companhia enquanto camaradas!”. Acredito que isso produz uma palpabilidade desse futuro que a gente pretende construir mais pra frente e dá materialidade e concretude para esse vínculo de camaradagem que a gente tenta reforçar na nossa relação militante.

Acho que esse desejo de mudar o mundo é fundamental e pode ser terapêutico porque ele pode produzir esses espaços onde a gente se retira, mesmo que momentaneamente, deste universo do capital e podemos sentir um pouco do gostinho que tem o mundo para além do capital. E, quando você sente o gostinho de algo, se torna muito mais concreto e muito mais palpável do que apenas se falar desse mundo futuro em termos abstratos.

RI: Quais seriam os caminhos para pensarmos uma universidade mais responsável com a saúde mental de seus membros?

HM: Eu acho que a nossa militância enquanto comunista é uma militância tensa. A gente tem que lidar o tempo inteiro com essa tensão que o Gabriel e o Edmilson descreveram bem, sobre estarmos aqui neste mundo ao mesmo tempo em que estamos tentando construir um mundo futuro. A gente tem que arrumar soluções paliativas e, enquanto isso, já construir essa estrada rumo a uma sociedade pós-capitalista, uma sociedade comunista.

E aí eu acho que passa por aliar bem esses dois momentos. É preciso considerar também o seguinte: a organização política é um imperativo do nosso tempo.

É legal? Não é uma das cinco coisas mais legais que faço no meu dia, mas é necessário (risos). E hoje ela é mais necessária ainda, porque todos os espaços estão passando por esse processo de precarização e de destruição das possibilidades de nós termos algum vínculo de solidariedade.

A organização política possibilita que a gente tenha condições de disputar esses espaços de maneira mais eficiente, ao invés de cair nessa lógica que o neoliberalismo impõe tão bem, que é a militância individualizada. Tanto é assim que o neoliberalismo não tem problema com a figura do ativista, individual, ele tem problema com a militância. Ele até mesmo incentiva uma criticazinha a ele próprio. O capitalismo hoje percebeu que é mais eficiente ele mesmo dar as ferramentas para que as pessoas o critiquem. Então ele mesmo organiza alguns espaços de crítica ao capitalismo, só que dentro dessa lógica do empreendedorismo, do empoderamento individualista, e assim por diante. Assim, a organização política se torna um espaço fundamental.

Isto dentro da universidade é mais fundamental ainda, porque você vai ter nesse processo de precarização a necessidade de luta por manutenções e avanços que são fundamentais para, por exemplo, melhorar a situação social dos estudantes da universidade, como a luta por restaurantes universitários, pela moradia universitária, pelas bolsas de permanência, pela manutenção e ampliação de políticas de cotas, pelas condições de permanência na universidade, pela ampliação de programas de iniciação científica e também para que mais pessoas tenham acesso às universidades.

Tudo isso produz a necessidade de organização política para pautar essas questões mais imediatas e paliativas, mas também há a necessidade de se construir um grande movimento que paute uma reestruturação completa da universidade e, a meu ver, esse movimento passa pela pauta da universidade popular.

O PCB constrói o Movimento por uma Universidade Popular (MUP), que pauta tudo isso que eu falei, mas que também visa a construir uma reestruturação fundamental da universidade, que tire a universidade dessa lógica produtivista e a coloque numa lógica de servir à sociedade: tanto que sirva para que aqueles que estão dentro da universidade se capacitem, sem que se precise ser um animal produtivo, por assim dizer, e que tenha condições de permanecer nessa atividade; quanto se torne não um ambiente de concorrência, mas um ambiente de democratização e circulação do conhecimento.

Então, por exemplo, é claro que precisamos de mecanismos de controle de produção acadêmica, mas esse controle não pode ser determinante para o futuro das pessoas dentro das universidades. Por que um aluno que fez um artigo é menos capaz de fazer um mestrado ou um doutorado, do que um aluno que fez 60 artigos? Pode ter tantos motivos para além da mera capacidade individual. Ou seja, a gente precisa pautar uma universidade que seja democrática em seu acesso, em suas possibilidades tanto de capacitação profissional quanto de inserção na carreira acadêmica, e isso passa por uma reestruturação profunda, restruturação do lattes, da CAPES, do repasse de verbas, dos vestibulares, do ENEM etc.

Então, eu acho que a pauta da universidade popular deve mirar esses dois horizontes simultaneamente: a construção de uma universidade popular a longo prazo e pautas imediatas relacionadas a luta pela manutenção e avanços. É uma luta árdua, porque a universidade não é um microuniverso isolado de toda a sociedade. Por isso que a organização política é fundamental, pois ela nos aponta que, sendo a universidade esse campo de luta importante, é preciso que se articule essa luta com outras lutas também, como as do movimento negro, do indígena, do LGBT e daqueles que pautam a luta contra o teto de gastos, contra a forma como é gerida a questão do ensino e da pesquisa no Brasil etc.

É preciso se ter claro que ninguém, a princípio, é contra a educação! Ninguém! Tabata Amaral é super a favor da educação. Se você falar com Jorge Paulo Lemann, ele será a favor da educação. Luciano Hulk também é super a favor da educação. O neoliberalismo é a favor da educação também!

Mas o que a gente tem que mostrar para as pessoas é que não basta só ser a favor da educação: é necessário construir uma educação na qual as pessoas se sintam e estejam de fato inclusas! E a grande realidade é que o povo brasileiro se encontra excluído do ensino superior. O movimento de uma universidade popular traz para a gente a possibilidade de dizer para pessoas “olha! a universidade é nossa! Vamos tomar ela, mas vamos tomar fazendo uma grande transformação!”. Mas a gente não consegue fazer isso, não basta ser apenas ativista pela educação, a gente tem que ser militante pela educação, e, de preferência, militante comunista, para rompermos com as amarras que o capital impõe para a realização desse projeto de universidade emancipatória.

RI: Uma palavra final para as pessoas que se veem presas entre tentar administrar trabalho, estudo e militância e ainda manter sua saúde mental nessa busca por mudar o mundo

HM: Eu acho que a gente primeiro precisa entender que sofrer, sentir dores psíquicas, é algo normal. Quando a gente chegar ao comunismo não necessariamente será um universo livre de sofrimento. As pessoas continuarão tendo de lidar com o sofrimento quando um ente querido morrer, quando seu bichinho morrer, quando seu time perder, quando perder uma amizade, quando um relacionamento terminar, independente das formas de relacionamento que se farão presentes no nosso futuro. Poderemos sofrer de crises existenciais, você poderá se pegar pensando “o que estou fazendo aqui? Qual o sentido da minha existência?”. Essas coisas vão trazer algum tipo de sofrimento.

A grande questão é a gente tentar produzir uma sociedade em que a gente saia desse sofrimento neurótico, por assim dizer, desse sofrimento repetitivo, de um mundo que nos sufoca, para um sofrimento banal, e entender que o sofrer tem um aspecto positivo: ele é parte de nossa existência. O sofrimento nos ensina, nos aponta possibilidades de pensar outros caminhos na nossa própria existência, inclusive enquanto sociedade. E dizer para as pessoas que construir esse futuro hoje, apesar de muito difícil, pode ser muito recompensador.

É importante entender que a gente não dá conta de tudo. Sempre que você acha que alguém dá conta de tudo é mentira. As pessoas não dão conta de tudo! E tudo bem! A gente tem que agir conforme nossos limites! Eu sei que é difícil, pois essa lógica produtivista determina inclusive quem nós somos para os outros, e isso é muito importante, então a gente termina embebecido nessa lógica, mas temos que ao menos ir tentando dosá-la enquanto não saímos dela.

O fundamental é perceber que juntos a gente pode, se não curar as nossas dores de hoje, ao menos sofrer de outra forma. Coletivamente, a gente pode sofrer de outra forma. Podemos dar outro sentido para o nosso sofrimento. E se isso não significa parar de sofrer, significa pelo menos, como diz Freud, sofrer melhor. Por isso também se procura terapia. E sofrer melhor, com mais qualidade, é muito melhor do que sofrer pior.

Talvez a militância seja esse espaço onde nós, compartilhando nossas dores, nossas angústias, e, ao mesmo tempo, compartilhando essa chama de construir um mundo diferente, consigamos sofrer melhor juntos. E sofrer melhor juntos é ainda melhor que sofrer melhor sozinhos. Então acho que a militância, a luta política e a luta política comunista possibilitam pra gente um sofrer melhor, porque o nosso sofrer melhor não é um sofrer sozinho, é um sofrer coletivo que nos retira da paralização em que o capital quer nos colocar.

Walter Benjamin dizia que o capitalismo nos controla nos melancolizando. Hoje o capitalismo nos controla nos tornando depressivos. Então a possibilidade é sofrermos melhor juntos! Sofrer não mais em depressão, mas sofrer em ação! Sofrer em agência! Em potência de transformação! E você, vendo que na militância a sua ação não começa em você e não termina em você, pois você tem camaradas com quem pode contar, começa a enxergar que, de alguma forma, aquilo que você está construindo é imortal.


Lançamento do livro “Neoliberalismo e sofrimento psíquico: o mal-estar nas universidades”, com Heribaldo Maia Data: Sexta (01/07) Local: Auditório do Sintfub (UnB) – UnB Bloco C Edifício Multiuso 1 Horário: 19h00 Entrada Gratuita

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