O PCB e a revolução no carnaval

O PCB e a revolução incidiram sobre o carnaval e habitam seus enredos, ressoando nos acordes e nas batucadas a mensagem emancipatória de superação da atual sociedade capitalista e de suas opressões.

por Emiliano Gonçalo

Acordes revolucionários no desfile da Beija-Flor

O Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis desfilou no carnaval deste ano com o enredo “Empretecer o Pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor”, de autoria coletiva dos componentes da comunidade. A sinopse do seu enredo comenta que “[e]mpretecer o pensamento do mundo é dar a toda a humanidade a oportunidade de uma visão diferente e original, com novos caminhos para o futuro, estabelecendo outras rotas possíveis”. O enredo pretende levar à Avenida “a contribuição intelectual negra para construção de um Brasil mais africano”.

Adianto que o objeto aqui não é comentar se a escola de samba foi bem-sucedida em seu objetivo, mas elaborar o vínculo do Partido Comunista Brasileiro com a proposta de um outro caminho possível para o país. Um caminho que, assim como o enredo da Beija-Flor, vê na participação e valorização do pensamento e da cultura de matriz africana, das negras e dos negros, e, portanto, também na manifestação cultural do samba, uma mediação intransponível.

Um dos elementos que a Beija-Flor fornece para nosso exercício consiste na elaboração do pensamento de Franz Fanon, psiquiatra e filósofo político natural da Martinica, ex-colônia e hoje departamento ultramarino francês. Fanon foi um político radical, pan-africanista e humanista marxista que pesquisou a psicopatologia da colonização e as consequências humanas, sociais e culturais da descolonização. Notabilizou-se por obras como Pele Negra, Máscaras Brancas (1952) e Os Condenados da Terra (1961). Enquanto médico e psiquiatra, apoiou a guerra de independência da Argélia em relação à França, tendo sido membro da Frente de Libertação Nacional da Argélia.

Em referência à obra de Fanon, a Beija-Flor afirma: “[p]roduzimos jeitos diversos de pensar o sentido de um mundo plural, mesmo que máscaras brancas sejam colocadas sobre a pele negra”. Em seguida, a sinopse do enredo complementa: “[a] voz da intelectualidade altiva e forte se ergue contra as desigualdades, propondo novos caminhos para transformar a realidade em que vivemos. É o levante quilombista em nome de uma sociedade mais justa!”. Ainda no compasso do enredo, a escola arremata e nos convida: “Filosofia em tambor sincopado que se transformou no maior espetáculo do ayê. Que possamos celebrar a arte que se afirma em cada Carnaval quando uma voz canta e um corpo responde ‘ao ressoar do som de um tambor’”. Nós, comunistas, não poderíamos ser insensíveis aos acordes dessa batucada, e, de fato, nunca fomos.

O PCB e o carnaval.

A União das Escolas de Samba foi fundada em 1934, vindo a se chamar posteriormente União Geral das Escolas de Samba, com o objetivo de ajudar a organizar o desfile de Carnaval no Rio de Janeiro, buscando mais apoio tanto do poder público como de possíveis financiadores da grande festa popular carioca. Apesar de começar a ser aceito pelo conjunto da sociedade, essa era ainda uma época em que o samba sofria preconceitos e perseguição da polícia e das autoridades. Heitor Cesar de Oliveira, membro do Comitê Central do PCB, nos informa que “[n]os anos 1940, parte dessa perseguição se dava pela proximidade entre as escolas de samba e o PCB”.

O Tribuna Popular, jornal do PCB que chegou a ter a tiragem de 50 mil exemplares diários, semelhante à dos principais meios burgueses, tornou-se o órgão oficial de divulgação da União Geral das Escolas de Samba do Brasil. Inclusive, no ano de 1946, o partido colaborou, também através do Tribuna Popular, com o concurso Cidadão do Samba. O PCB nesse ano organizou diversas reuniões e comícios nas quadras das escolas de samba pelo subúrbio carioca.

As afinidades se desdobraram em diversos episódios. O Tribuna Popular chegou a ser responsável pela organização do carnaval de 1947 no Rio de Janeiro, chamado “O Carnaval da Paz”. Nessa época, o PCB já privilegiava a relação com o “mundo do samba” como caminho para se aproximar das populações moradoras de favelas, denunciando nas páginas de seu jornal os problemas de saneamento, abastecimento, urbanismo, entre outros, desses territórios urbanos habitados pelo setor mais pauperizado da classe trabalhadora. O partido já havia encontrado no samba e nas escolas de samba, também, uma excelente forma de propaganda política, de tal maneira que os comícios eleitorais para o pleito municipal de 1947 foram convertidos em “festas eleitorais” da “chapa popular”, cujo ponto culminante era sempre a apresentação de sambistas, quando não de desfiles de agremiações carnavalescas.

Em resposta à influência do partidão no mundo do samba, a prefeitura carioca criou a Federação Brasileira de Escolas de Samba, instituída de cima para baixo e patrocinada pelos setores conservadores da imprensa local, como o jornal A Manhã. Tal iniciativa tinha o propósito de esvaziar a União das Escolas de Samba, que recebera o apelido de “União Geral das Escolas Soviéticas”, como forma de estigmatizar a entidade, associando-a aos comunistas. As escolas de samba deveriam se filiar à nova federação para poder disputar os desfiles financiados com apoio do poder executivo municipal. O objetivo então era claro: quebrar o laço do PCB com as escolas de samba, o que foi estimulado pelo retorno do partido para ilegalidade, levando o Tribuna Popular para o mesmo destino. Mesmo após colocarem novamente o partido na ilegalidade, a prefeitura seguia destinando recursos apenas às escolas filiadas à federação.

Em 1949, dirigentes das escolas de samba acusados de ligação com o partido criaram a União Geral das Escolas de Samba Brasileiras, mas continuaram sendo perseguidos e afastados dos recursos. Em 1950, persistindo no objetivo de prejudicar a entidade recém-criada, que manteria vínculos com o PCB, a prefeitura oficializou a União Cívica de Escolas de Samba, justificando assim o repasse exclusivo de apoio financeiro às escolas participantes da União Cívica. Entretanto, essa nova entidade não logrou unificar as escolas e nem realizar o seu próprio carnaval.

Ritornello entre a revolução e o carnaval.

Lemos, no artigo de Bruna Caetano, que, segundo Tiaraju Pablo, coordenador, em 2019, do Centro de Estudos Periféricos (CEP) e pesquisador do carnaval, os sambas-enredo sempre incomodaram o poder político por seu caráter crítico. É justamente no campo da elaboração crítica das massas acerca do mundo em que vivem que o trabalho de base comunista incide.

O Tribuna Popular organizou, em novembro de 1946, no campo de São Cristóvão, um concurso especial de carnaval em homenagem a Prestes, o “Cavaleiro da Esperança”, e à Proclamação da República. Vinte e duas agremiações carnavalescas participaram do concurso, quase todas animando seus desfiles com sambas em homenagem ao político comunista, o que é uma indicação mais que sólida da força do partido no “mundo do samba” carioca da época.

Além da já mencionada homenagem a Prestes, a revolução ressoou por diversas vezes nos enredos dos desfiles carnavalescos do Rio de Janeiro, como, por exemplo, nos versos da Estação Primeira de Mangueira em 2019, que homenageou “quem foi de aço nos anos de chumbo” e afirmou ser na luta “que a gente se encontra”.

Ainda segundo o artigo de Heitor Cesar de Oliveira, os vínculos entre o samba carioca e a revolução comunista produziram um episódio memorável, que não poderíamos deixar de mencionar. No dia 30 de abril de 1959, a Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro embarcou para Havana, Cuba. A convite das autoridades revolucionárias cubanas, formou-se uma delegação de sambistas brasileiros selecionada para celebração do 1º de Maio após a Revolução Cubana, encarregada de animar o festejo da vitória contra a ditadura de Batista. Não deu outra: nosso povo irmão, saído de estrondosa vitória contra o imperialismo, caiu no samba na avenida do Malecón. Mais uma vez, a batucada do samba embalava o grito revolucionário e a luta por justiça.

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