Os efeitos da crise pandêmica sobre as mortes por suicídio: entrevista com Rômulo Caires

O adoecimento psíquico durante a pandemia de covid-19 refletiu não apenas a precariedade das políticas nacionais de saúde, como também o agravamento das contradições sociais.

por Angelo Barreto

Nesta passagem do século XX para o século XXI o suicídio tem sido considerado um grave problema de saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 800 mil pessoas se suicidam todos os anos. O suicídio afeta famílias, comunidades e países inteiros, além de promover efeitos duradouros nas pessoas que se relacionavam afetivamente com o/a suicida. A morte autoinfligida, como também é conhecida, foi a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos em todas as regiões do mundo, no ano de 2016. Nesse mesmo ano, 79% dos casos ocorreram em países de baixa e média renda, ainda de acordo com a OMS.

Os efeitos da pandemia de Covid-19 sobre as mortes por suicídio

Objetivando estimar o excesso de suicídios no Brasil e avaliar padrões dentro e entre as regiões do país em 2020, o estudo realizado pelos pesquisadores Jesem Orellana (Fiocruz Amazônia) e Maximiliano Ponte (Fiocruz Ceará) mostrou “parte dos efeitos indiretos associados à primeira onda da pandemia de Covid-19 sobre as mortes por suicídio, com aumento significativo nas regiões Norte e Nordeste, socioeconomicamente mais vulneráveis”. Na região Norte, as mortes por suicídio alcançaram um excesso de 26% entre homens com 60 anos ou mais. Enquanto que na região Nordeste esse padrão foi observado entre mulheres com 60 anos ou mais, com excesso de suicídios de 40%.

Se 6.249.700 vidas foram ceifadas diretamente pela pandemia de Covid-19, outras tantas foram levadas em decorrência de efeitos indiretos da pandemia em outras causas de morte, como o suicídio. Os autores concluíram que “apesar da diminuição geral (13%) na taxa de suicídios no Brasil no período avaliado, houve um excesso substancial de suicídios em diferentes faixas etárias e sexos das regiões Norte e Nordeste do país”.

São diversos os fatores associados ao suicídio: tentativa pregressa de suicídio, transtornos depressivos, transtorno de personalidade, situações de estresse e pressão, alcoolismo, vivência de conflitos, uso de substâncias psicoativas, história de abuso sexual, casos de suicídio na família, idade (jovem ou idoso), trabalho militar ou paramilitar, profissões de saúde (especialmente médico/a), desemprego, baixa escolaridade, baixa renda, condição de solteiro/a, adversidades variadas encontradas em contexto de desastres (ambientais ou provocados por ação humana) tais como lesões físicas ou danos à propriedade e pertencimento a grupos que sofrem discriminação (refugiados, migrantes, indígenas, pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, intersexuais (LGBTI), pessoas em situação prisional).

No Brasil, o cenário de adoecimento psíquico e suicídio da classe trabalhadora tem se intensificado não somente em decorrência da crise sanitária e pandêmica dos últimos dois anos, mas também pelo histórico processo de precarização e financiamento insuficiente da saúde pública brasileira. Em síntese, o suicídio é um desfecho resultante de uma complexa rede de condições degradantes que incluem fatores de vulnerabilidade e condições de saúde pré-existentes ao nível pessoal, mas também de manifestações sociais, políticas e econômicas, agravadas pelo atual estágio do capitalismo.

Para melhor compreender as nuances relativas ao fenômeno do suicídio num cenário de crise pandêmica, a Revista O Ipê entrevistou o médico Rômulo Caires, que atua na Atenção Primária à Saúde (APS) na região metropolitana de Salvador e é militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e da corrente sindical Unidade Classista (UC).

Revista O Ipê: Considerando o histórico de precariedade da saúde pública brasileira, com seu financiamento insuficiente e longo processo de privatização, quais os impactos disso na degradação das condições de vida e, por tabela, na ampliação dos casos de suicídio no Brasil?

Rômulo Caires: De fato, observamos uma grande contradição na história da saúde pública brasileira. Se o desenvolvimento capitalista traz consigo demandas de maior intervenção da saúde no corpo social com o intuito de garantir a reprodução da força de trabalho, se a saúde pública se faz necessária como condição de ampliação das relações sociais capitalistas, o nível de reconhecimento social do que sejam condições mínimas para a reprodução da força de trabalho varia historicamente, varia geograficamente e varia de acordo com a dinâmica das lutas sociais.

A formação histórica do Brasil engendrou uma via de desenvolvimento capitalista no qual a vida das classes trabalhadoras nunca foi tomada como uma prioridade. A necessidade de mão de obra para o processo de modernização brasileiro foi garantida pela imensa massa de expropriados, sendo o passado escravagista continuamente atualizado na forma como a população negra é exterminada, seja por meio de imensas jornadas de trabalho, seja pela manutenção de sua condição de desempregados vítimas da fome, seja por seu assassinato pelas políticas de segurança pública.

Esse preâmbulo se faz necessário para entender como a saúde pública brasileira se desenvolveu no seio dessa sociedade eivada pelo conflito de classe e pelo racismo. Em muitos sentidos, a saúde pública no Brasil seguiu a dinâmica de “revolução pelo alto”, no qual as transformações não se engendraram a partir da luta radical dos que vem de baixo, mas por articulação das classes dominantes, que nunca se interessaram realmente em proteger a vida dos trabalhadores.

As lutas que mobilizaram toda uma gama de trabalhadores da saúde, partidos políticos, sindicatos, intelectuais e usuários de saúde nos anos 70 e 80 conseguiram arrancar o Sistema Único de Saúde (SUS), mas não puderam enfrentar radicalmente a dinâmica de acumulação capitalista no setor saúde e perderam o ímpeto contestatório ao se limitarem ao âmbito institucional. O SUS foi assim subfinanciado, desfinanciado e ainda contribuiu para reproduzir a lógica privatista no seu próprio seio.

Se o SUS pôde apresentar um programa que visava alcançar a saúde do trabalhador em sua integralidade foi por reconhecer as doenças e o sofrimento psíquico como determinados pela própria forma de organização da sociedade. O suicídio precisa ser compreendido assim como um fenômeno que emerge das condições de cada período histórico. A sociedade capitalista sempre contaminou, capturou ou extinguiu as diversas formas de vida e relações comunitárias. O imperativo do lucro, o individualismo hegemônico, a própria dureza das condições médias de vida do trabalhador brasileiro os coloca em situações vulneráveis a sucumbirem diante dos conflitos existentes.

O suicídio não deixa de ser um efeito da destruição dos laços comunitários e da dissolução da riqueza de sentidos que uma vida humana pode comportar. Quando pensamos em um sistema de saúde que dê conta da integralidade de um ser humano estamos também pensando num sistema capaz de atuar nas diversas dimensões desta vida, seja no âmbito do trabalho ou da vida cotidiana. A precarização destes serviços impede o acesso aos cuidados em saúde que poderiam se não impedir a existência do suicídio, dar suporte na recuperação de quadros graves de sofrimento psíquico.

RI: De que modo as crises sanitária e pandêmica impactam na ampliação dos casos de suicídio?

RC: A crise sanitária e pandêmica expressou um sintoma de outra crise maior que é do sistema metabólico do capital. Ao agravamento das condições de vida da imensa maioria da população se acrescentou a devastação causada pelas mais de 650 mil mortes por Covid-19. A pandemia não apenas deflagrou imenso sofrimento pelas perdas de vida que poderiam ter sido poupadas, mas também intensificou o isolamento e a individualização. Os casos de suicídio nesse período refletem não apenas a precariedade das políticas nacionais de saúde como também o agravamento das contradições sociais, o aumento da sensação de abandono e desamparo.

RI: É possível traçar uma relação entre adoecimento psíquico, suicídio e as manifestações sociais, políticas e econômicas, agravadas pelo atual estágio do capitalismo? Quais?

RC: O estágio atual do capitalismo é por muitos denominado de etapa neoliberal ou etapa de restruturação produtiva. O enorme desenvolvimento das forças produtivas no século XX, principalmente após a revolução microeletrônica, operou grande transformação nas relações trabalhistas e aumento do número de desempregados. Vivenciamos avanço da lógica da mercadoria nos mais diversos âmbitos da vida humana e a grande derrota da classe trabalhadora representada pelo fim da URSS fez muitos acreditarem no fim da história e na vitória final do capitalismo como modo de vida.

A grande questão é que o capitalismo não só não foi capaz de dar respostas satisfatórias aos dilemas societários do século XXI, como agravou uma série de problemáticas que já estavam latentes desde sua formação. Me refiro à destruição ambiental, ao racismo, à dominação de gênero e sexualidade, ao desemprego estrutural e à perda de qualquer horizonte de soberania alimentar. Assistimos novamente à explosão no número de pessoas passando fome em todo o mundo. Além disso, há uma produção ideológica que estimula aos trabalhadores serem gestores de sua própria vida e de sua própria saúde. São assim responsabilizados pelas suas condições de vida e muitas vezes internalizam mecanismos de inferiorização que promovem intenso sofrimento.

A perda do horizonte de uma nova sociedade que de fato consolide práticas de liberdade substantiva deixa a maioria das pessoas entregues a falsos ídolos e pílulas mágicas. Nesse sentido, o desenvolvimento capitalista representa hoje a destruição de vidas e sonhos e determina o quadro geral de muitas das formas de sofrimento psíquico contemporâneo e a intensificação nos casos de suicídio.

RI: Pensando a construção de uma sociedade socialista, pela qual nós comunistas tanto lutamos, qual o modelo de saúde mental podemos esperar?

RC: Devemos esperar que o modelo de saúde mental de uma sociedade emancipada não seja baseado em paradigmas naturalizantes e que abordem o ser humano inserido na dinâmica totalizante da vida societal. Nessa via, a abordagem e o cuidado às patologias e sofrimentos da psiquê não serão baseadas em teorias individualistas e que reificam a subjetividade humana.

Podemos assim propor que a sociedade socialista terá condições de abordar o problema da saúde mental umbilicalmente ligado à dinâmica de reprodução da sociedade como um todo. A oferta de diversos serviços e condições materiais que possibilitem uma vida mais plena de sentido será acompanhada de tratamentos individuais que possibilitem os seres humanos enfrentarem os nós e inconsistências de suas vidas subjetivas, sempre comunicando essa elaboração com a construção dos diversos âmbitos da vida social, sejam eles afetivos, políticos e culturais.

O poder da classe trabalhadora será o ponto de apoio para a restruturação de todo um modo de viver a vida mais livre e sem as amarras da exploração capitalista. Isso não se confunde com o sonho religioso de fim de qualquer tensão e sofrimento humano, mas indica a construção de vidas menos dilaceradas e alienadas de suas próprias condições de vida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s