A sinfonia comunista de Claudio Santoro

O compositor amazonense Claudio Santoro é um dos mais respeitados artistas brasileiros no meio da música erudita Brasil afora. O que pouca gente sabe é sua ligação com o marxismo e o centenário Partido Comunista Brasileiro.

Este artigo abre a série Comunistas de Brasília, iniciada por ocasião do centenário do Partido Comunista Brasileiro.

por Guilherme Monteiro

Diariamente, milhares de trabalhadores embarcam e desembarcam na rodoviária do Distrito Federal. A poucos metros dali, a dissonância das buzinas que ambientam a rotina do brasilense harmoniza com a figura imponente em formato piramidal do Teatro Nacional Claudio Santoro, um ousado projeto arquitetônico elaborado pelo comunista Oscar Niemeyer, e que viria a ser rebatizado, em 1989, em homenagem ao maestro e compositor (e também comunista) Claudio Santoro. 

Na biografia de Claudio Santoro é possível identificar feitos notáveis, como ter sido um dos responsáveis pela fundação do departamento de música da Universidade de Brasília ou da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, além de ter se tornado um compositor e maestro de renome mundial. Para além disso, a história de sua vida se entrelaça com a do Partido Comunista Brasileiro (PCB), sobretudo no período anterior ao golpe de 1964. 

Prelúdio

Claudio Franco de Sá Santoro nasceu em 23 de novembro de 1919, em Manaus, Amazonas. Seu interesse por música se manifestou desde cedo, quando aos 10 anos de idade ganhou o seu primeiro violino e iniciou as aulas com um professor de violino da região. Não demorou mais de dois anos para que o pequeno Claudio passasse a se apresentar em saraus e recitais no Amazonas. Seu destaque era tal que o governador do Amazonas, Nelson de Mello, assinou um decreto-lei determinando que o estado custeasse seus estudos na Capital Federal – à época, o Rio de Janeiro. 

Não demorou muito para que Claudio Santoro passasse a estampar os jornais das mais diferentes regiões como um “garoto prodígio” da música. Era o menino do “violino encantado”. Ainda antes de completar os 18 anos, já se apresentava como solista em concertos e também no badalado Cassino de Copacabana, além de ministrar aulas de violino. Contudo, somente na segunda metade da década de 1930 o violino começaria a entrar em segundo plano em relação àquela que hoje é reconhecida como sua especialidade: a composição.

O que, segundo o próprio Santoro, não passavam de “rabiscos”, viria a ser aperfeiçoado pelos estudos até se materializar em grandes obras do maestro. Seu encontro com o músico e também professor Hans-Joachim Koellreutter viria a forjar a sua batuta na efervescência do que havia de mais moderno na música erudita europeia da época: o dodecafonismo. De certa forma, esta estética musical apontava um caminho de expressão de sua musicalidade que Santoro já almejava, mesmo que ainda não dispusesse dos conhecimentos necessários para de fato representar os sons que estavam na sua cabeça. Contudo, essa sonoridade almejada por Claudio não se esgotava no dodecafonismo e revelava em si algo que viria a marcar profundamente grande parte de suas manifestações musicais e políticas: a causa proletária. 

Militante comunista

Em 1944, Claudio Santoro decidiu filiar-se ao Partido Comunista Brasileiro. Segundo entrevista exclusiva concedida à Revista O Ipê por Gisele Santoro, viúva de Claudio e uma das referências no que diz respeito ao ballet brasileiro, “toda ligação do Claudio com o partido era uma coisa completamente humanitária. Ele [Claudio] achava que isso ia mudar a situação das pessoas, dos pobres, dos que não tinham vez na vida”. 

Contudo, apenas dois anos após seu ingresso no partido, Santoro já pode sentir na pele o que parecia um prenúncio da intensificação do anticomunismo das décadas seguintes. Já com todos os seus bens no Brasil vendidos e prestes a embarcar para os Estados Unidos para usufruir de uma bolsa da Fundação Guggenheim, Claudio teve seu visto negado devido à sua filiação ao PCB: “no dia em que fui buscar o visto para a América, me perguntaram se eu era do Partido Comunista, e eu, como sempre aprendi em casa a ser muito honesto, confirmei; o Partido era legal e não tinha por que negar. Então me fizeram uma série de perguntas capciosas e me disseram que eu não estava em condições de receber o visto para entrar nos Estados Unidos”. 

Com isso, o músico redirecionou sua rota para a França, onde foi estudar no Conservatório de Paris: “eu fui para Paris, onde estavam todos os comunistas, como Jorge Amado, Ana Estela, o partido já estava na ilegalidade. Tínhamos reuniões para discutir os problemas, para ajudar o partido no Brasil etc.”. 

De volta ao país em 1948, teve sérias dificuldades em conseguir um emprego, o que o levou a se mudar para a fazenda do pai de sua primeira esposa, Carlota, onde ele afirmou ter implementado “um sistema socialista na administração da fazenda”. Mas quando a situação financeira de Claudio Santoro poderia fazê-lo esmorecer em seus posicionamentos comunistas, ele passa a apresentar mais e mais provas de seu comprometimento com as mudanças econômicas e sociais por que a sociedade clamava. 

Alguns acontecimentos são exemplos disso. Em 1949, recusa-se a assinar um documento proposto pela embaixada em que refutava sua filiação ao PCB para que pudesse ir aos Estados Unidos receber um prêmio pela sua Sinfonia nº3. Em 1953, trabalhando na Rádio Clube do Brasil, foi alvo de reportagem do jornal Tribuna da Imprensa sob o título “Uma delegação de trabalhadores e partidários da paz do Brasil, em visita a Moscou, colocou flores no Mausoléu da Praça Vermelha”. Nessa mesma ocasião, Santoro ainda viria a visitar o túmulo de Stalin. Em meio à crescente repressão que os comunistas vinham sofrendo no Brasil e no mundo, o músico foi demitido da Rádio Clube após esse evento. 

Ainda assim, Claudio se manteve ferrenho às suas posições políticas, o que causava certo incômodo em algumas autoridades brasileiras. Ao retornarem do exílio provocado pelo golpe de 1964, Gisele Santoro relatou à Revista O Ipê que um major o interrogou e lhe disse que não conseguia compreender porque os intelectuais brasileiros eram todos ligados ao PCB. Claudio respondeu: “o senhor já andou pela rua? Já viu as crianças morando na rua? Morrendo de fome? O senhor não quer mudar isso não?” 

Por uma estética marxista

Fato é que, se as visões de sociedade de Claudio Santoro e o comunismo formavam uma harmonia perfeita, a relação de sua criação artística com as ideias socialistas não ficavam nem um pouco para trás. O autor José Luiz Sampaio, na biografia Claudio Santoro: 100 anos de música (Funarte, 2019), traz que “o impacto do contato com o mundo soviético foi de tal forma marcante que o faria inclusive abandonar empregos em São Paulo”. O período que compreende as décadas de 1940 e 1950 foi de intenso intercâmbio do compositor com a União Soviética e a Europa, o que o colocou em contato com o Realismo Soviético, corrente estética que pregava que a arte tinha um compromisso com a formação do povo para o socialismo.

Como resultado, Claudio Santoro revolucionou sua expressão musical. Julgava que agora suas obras evocavam muito mais características que se relacionavam ao seu país de origem. Para Santoro, o dodecafonismo não mais o representava como outrora: “se a arte atonal não tem nenhum contato com a linguagem musical usada por nosso povo, a qual é por essência tonal ou modal, deve ser posta de lado, para que não desvirtue as características próprias de nossa linguagem musical”.

Segundo o próprio compositor, sua entrada no partido comunista e a consequente exposição às discussões dentro do campo da estética marxista colocou a relação obra/proletariado como algo central em seu trabalho: “exprimir as ideias proletárias, exprimir as ideias do povo brasileiro, dizer algo que ele sinta e ajuda-lo a progredir, enfim, eram problemas que estavam na minha cabeça”. Para ele, é necessário que o povo reaja “na defesa da nossa cultura popular, para que ela não seja despedaçada pelo novo inimigo da humanidade: o fascismo disfarçado, o imperialismo americano”.

Santoro aprofundaria e reformularia as pesquisas que constituiriam o caminho para conexão da obra com o povo: “hoje, acho que que para ser compositor brasileiro não é necessário que apareçam na superfície das obras elementos de contornos rítmicos e melódicos característicos do folclore. […] A coisa é mais profunda e só se consegue através de uma participação integral na vida brasileira, na natureza, no povo. Sentindo suas deficiências e grandezas”, relata o autor em entrevista ao jornal O Globo, em 1975.

Portanto, seja na vanguarda do dodecafonismo, seja em seu flerte com o folclore nacional ou em suas incursões pela música eletrônica, Claudio Santoro buscou aprimorar cada vez mais a conexão do fazer artístico com a sua crença, já manifesta na década de 1940, de que “a parte ideológica do artista criador tem uma importância fundamental, a fim de contribuir para o desenvolvimento da sociedade e, portanto, da renovação dos valores artísticos e da arte em si”.

Arte, educação e exílio

Em 1964, Darcy Ribeiro convidou Claudio Santoro para trabalhar no processo de idealização e criação do Departamento de Música da Universidade de Brasília. O empenho do compositor para elaborar uma estrutura curricular para o curso de música e até mesmo a criação de uma orquestra de câmara composta por professores e alunos foi rapidamente ofuscado pelo golpe militar ocorrido no Brasil. Alunos, professores e gestores eram alvos constante de perseguição, o que levou Santoro, ainda que relutante, a procurar o exílio na Europa.

Entre idas e vindas ao Brasil, Claudio e Gisele Santoro, com quem havia se casado em 1963, passavam tanto por algumas dificuldades de ordem financeira como abusos por parte das autoridades brasileiras. Claudio tentava se estabelecer no Brasil, mas sequer conseguia um emprego, pois as autoridades exigiam que ele abjurasse sua ligação com o comunismo por escrito, o que se recusava a fazer. A perseguição não atingia apenas Claudio, mas também sua família, a exemplo da retenção dos passaportes de dois dos filhos deles, de 3 e 5 anos, que tiveram de esperar por oito anos a Justiça brasileira autorizar a mudança para Alemanha enquanto ambos viviam com a avó.

Apesar disso, na década de 1970 a família Santoro passaria por um período de relativa estabilidade. Vivendo na Alemanha, Gisele Santoro havia criado sua própria escola de dança e era diretora do balé da Ópera de Heidelberg, enquanto Claudio Santoro encontrava sua própria “voz” na música eletrônica e ocupava o cargo de professor de regência e de teoria nas escolas de música de Heidelberg e Manheim. Seus filhos, seguindo os passos dos pais, desenvolviam suas habilidades no balé e na música. Uma realidade bastante diferente do conturbado processo que o Brasil vivia naquela época.

O retorno ao Brasil

Mesmo afastado diretamente da militância partidária, por mais que ele saísse do Brasil, o Brasil não saía dele. “O Claudio tinha tudo para trabalhar, podia fazer os concertos que quisesse, era uma vida boa, em uma cidade que era um encanto, eu perguntava: para quê ir bater cabeça no Brasil de novo? Mas o Claudio… O Brasil era o filho que ele não tinha conseguido criar. Ele sentia que precisava terminar o serviço que havia começado”, relata Gisele Santoro. 

Em 1978, foi convidado para dirigir o Departamento de Artes da UnB e organizar e dirigir a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília, assumindo os cargos após conseguir driblar as objeções típicas que um comunista enfrentaria para retornar ao país em meio a uma ditadura militar. Contudo, apenas três anos depois de sua contratação para dirigir a orquestra, foi demitido por aquilo que julgou ser uma perseguição política a ele e sua esposa: “Faziam reuniões e não chamavam ele para discutir certas coisas. 

Claudio Santoro também deixava claro a sua insatisfação com a forma que a cultura era tratada pelo governo brasileiro. Há relatos de críticas suas à falta de incentivo para formação de músicos e compositores e a situação trabalhista dos músicos, que muitas vezes tinham que se desdobrar para tocar em vários lugares e ter uma renda suficiente para viver, cortando o próprio tempo que esses músicos teriam para se aperfeiçoar em seu fazer artístico e colaborar para o desenvolvimento musical da sociedade. “É preciso que se destinem mais verbas, mais dinheiro para a cultura. O povo que não tem amparo à sua cultura é um povo sem personalidade”, salientava Santoro

Mesmo com suas opiniões fortes e, por vezes, indigestas para as autoridades brasileiras, Santoro retornaria ao posto de diretor da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional em 1986. Faleceu no palco em 27 de março de 1989, vítima de um enfarte fulminante enquanto ensaiava a sua orquestra. Morria o homem, mas permanecia seu legado nas memórias afetivas de Gisele Santoro e sua família, na história da música do Brasil, e, sem sombra de dúvidas, na história do movimento comunista brasileiro. 

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