Maratonar séries: o novo paradigma de consumismo na indústria do entretenimento

por Häxan

Maratonar séries ou “binge-watching”: como os commodities midiáticos trabalham nos mecanismos capitalistas de apropriação e alienação do tempo de lazer dos indivíduos

Em março de 2020, foram anunciados os primeiros lockdowns e diretrizes de isolamento social para a contenção da pandemia do Covid-19. O que era previsto para durar no máximo um mês foi se estendendo, e, hoje, exatos dois anos depois (que mais pareceram uma década inteira), vivemos num mundo onde o coronavírus vem se endemizando na população mundial, com novas ondas de infecção e novas variantes surgindo continuamente. Muito se falava sobre o pós-pandemia e o “voltar ao normal”, contudo, observando a conjuntura atual, pode-se dizer que vivemos um processo de mudança sistêmica mundial que afetou de alguma forma todos os níveis da esfera da vida humana. Um novo normal. E a área da cultura não foi exceção.

A indústria do entretenimento foi uma das primeiras a ser afetada, com cancelamento de shows e fechamento de cinemas e teatros. Enquanto gravações de diversos seriados e filmes foram adiados para 2021 (e ainda assim com enredos adaptados para as produções se adequarem às restrições de isolamento social), os filmes que não foram cancelados ou adiados acabaram sendo lançados diretamente nas diversas plataformas de video on demand (VOD) criadas pelos próprios estúdios. Plataformas que inclusive surgiram em massa no ínterim de 2019 e 2020, como Disney+, Paramount Plus, Peacock etc. Hoje, plataformas de VOD se estabeleceram como o novo paradigma da indústria do entretenimento. Essa transformação já vinha ocorrendo desde meados da década passada; a pandemia somente catalisou esse processo, nos empurrando totalmente para esse novo momento e formato de consumo de mídia.

Ainda que, após a pandemia, já tenhamos novamente os lançamentos de filmes em cinemas, as plataformas de streaming vêm lançando esses conteúdos apenas alguns dias depois – quando não simultaneamente. Nos tempos das mídias físicas em VHS, DVD e BluRay, filmes e seriados levavam meses e até anos para chegar às prateleiras, quando lançados no mercado de home video. A não ser que você baixasse o rip dos episódios pela internet, sabe-se lá quando seria possível reassistir toda uma temporada de alguma série. Além disso, mesmo com downloads pela internet, se fosse algum seriado em andamento, seria preciso esperar pelo término da transmissão de todos os episódios. Nos últimos 10 anos, contudo, com o crescimento do uso de plataformas de VOD, além das práticas de negócio normalizadas pela Netflix, já se tornou possível assistir um seriado inteiro no próprio dia de estreia. Com o crescimento de usuários dessas plataformas, tornou-se ubíqua a cultura de “maratonar séries” – assistir vários episódios de uma só vez sem intervalos.

A prática de lançar todos os episódios de uma temporada, ou o seriado inteiro, de uma só vez em uma plataforma, sem intervalos comerciais – e a reprodução automática contínua –, não só mudou como consumimos mídias audiovisuais, mas também afetou como essas mídias estão sendo produzidas. Na transmissão tradicional pela televisão, as restrições de tempo e horários de transmissão (21 ou 44 minutos com intervalos comerciais, transmissões semanais) impunham restrições que se refletiam na edição e na linha narrativa entre os episódios de uma temporada, além do tipo de conteúdo cuja abordagem era permitida.

Além disso, o engajamento do expectador ficava limitado a apenas a duração de um programa, ou a duração até o próximo intervalo comercial, não o prendendo durante várias horas ininterruptas. Em séries lançadas diretamente em streaming há uma maior liberdade editorial. O formato de 45 minutos se torna a norma, sendo bastante comuns episódios de 75 a 90 minutos, especialmente em aberturas ou encerramentos de temporadas. Esse formato proporciona também narrativas mais conectadas e envolventes, nas quais se exige uma maior atenção do expectador e são mais comuns os cliffhangers – situações limites no final do episódio. Maratonar séries torna-se quase obrigatório.

No ano de 2013, a Netflix declarou que maratonar séries já era o novo normal; mesmo ano em que a Oxford nomeava binge-watching [maratonar séries] como a nova palavra mais popular daquele ano.

Junto a essa declaração, a empresa de streaming também anunciava que havia se associado ao antropólogo cultural Grant McCracken, em uma clara estratégia de marketing para humanizar sua análise de big data. Nos resultados divulgados por McCracken, o hábito de maratonar séries é pintado como algo extremamente positivo, visto até mesmo como uma forma inclusão social por ser uma atividade melhor feita em grupo – embora alguns estudos da época já mostrassem que ela levava ao isolamento e ao sentimento de solidão.

O que dizem os pesquisadores da psiquiatria e psicologia?

Pesquisas acadêmicas especificamente sobre o hábito maratonar séries e sua influência estado psicológico das pessoas vêm sendo realizadas sistematicamente desde 2015. A grande maioria desses trabalhos têm foco em descobrir se maratonar séries pode ou não algum ser classificado como algum tipo de vício comportamental ou se estão relacionadas a comportamentos problemáticos ou a patologias como depressão, ansiedade e distúrbios de sono. A partir da pandemia, pesquisas e coleta de dados sobre tais efeitos parece ter entrado em foco. Em maio de 2020, já havia levantamentos sobre maratonar séries como algo problemático. A atividade passou a ser vista como uma forma de escapismo, para evitar o tédio, a solidão etc.. Embora traga gratificação a curto prazo, o hábito leva ao abandono de outras práticas cotidianas, levando a quadros de depressão e ansiedade.

Em geral, as pesquisas apresentam uma avaliação negativa do hábito de maratonar séries. As mais recentes ressaltam que o trabalho remoto e isolamento durante a pandemia acabaram por ampliar essa prática. Algumas porém apontam um lado positivo: o aumento da percepção de autonomia e de autocontrole dos espectadores. A liberdade ilimitada de escolha proporcionada pelas plataformas de VOD leva a uma relação com as obras diferente daquela oferecida pela curadoria limitada das grades televisivas. Cabe indagar, em todo caso, até que ponto essa liberdade é real, num mundo onde a produção audiovisual é monopolizada por algumas poucas empresas e estúdios multibilionários. A maior delas, sabe-se, tem por filosofia “gerar lucro primeiro, produzir uma obra depois”.

A ilusão capitalista da autodeterminação

A ideia de verdadeira liberdade de escolha e autodeterminação é central na filosofia do liberalismo econômico capitalista, pois é o argumento que justifica a ilusão desse tipo de economia de mercado competitiva voltada ao lucro eterno através do consumo. Acoplada a essa ideia de autodeterminação de escolhas, também encontra-se a ideia da autopropriedade do tempo, com a qual somos formados para acreditar que todo o tempo que possuímos em nossas vidas é um bem, sobre cuja posse temos total controle. Só gastamos (ou vendemos) esse bem por livre e espontânea vontade.

Obviamente, na estrutura social capitalista, toda classe trabalhadora é roubada por meio dessa suposta liberdade da filosofia política liberal. Temos que vender a maior parte do nosso tempo e força de trabalho para sobrevivência. O resto do tempo está reservado para, ou produzir mais, ou para nos prepararmos para sermos mais eficientes durante o tempo produtivo. Ao final, o consumismo acaba sendo usado como uma suposta via de liberdade da população quando, na verdade, a subjuga mais aos mecanismos do sistema, que alimenta pela circulação e consumo de produtos e serviços desumanizados – higienizados dos contextos sociais, culturais, políticos e de trabalho que os produziram.

Nosso tempo, nesse maquinário de produção e consumo, torna-se alienado e comodificado em capital (não somente financeiro, mas também cultural), que, por sua vez, gera lucros ao sistema. Enquanto nos força a vender nosso tempo produtivo por frações minúsculas de seu valor real, nos empurra ainda mais à necessidade de maior e maior consumismo.

Na conjuntura de quarentena e lockdown, os tempos e espaços de moradia, lazer e trabalho se mesclam. A necessidades de isolamento social, junto ao caos político-social, impactou profundamente a saúde mental da população em geral. A ubiquidade do hábito de maratonar séries – e os próprios formatos de mídias audiovisuais construídos especificamente para estender-se o máximo possível – talvez revele problemáticas mais profundas. Elas podem se tornar mais incisivas com esse giro de chave no status quo da produção da indústria do entretenimento; ainda mais nesse momento de alto desemprego, terceirização e domínio do mercado de trabalho pelas incertezas de um mercado plataformizado – Uber, iFood etc. – no qual o tempo finito que possuímos nos é cada vez mais roubado e consumido pelo vampirismo do sistema de capital.


Leituras complementares

MARX, K. O Capital: Uma Crítica da Economia Política, Vol. 1 Os Processos de Produção do Capital.

BOOTH, W.J. Economies of Time: On the Idea of Time in Marx’s Political Economy. In: Political Theory, Vol. 19, No. 1 (Feb., 1991)

ROJEK, C. Did Marx have a theory of leisure? In: Leisure Studies, 3:2, 163-174, Department of Social Science , The Queen’s College , Glasgow, Scotland (2006)

Um comentário

  1. excelente reflexão. eu sempre fico muito irritado pelo fato das séries geralmente serem sobre pessoas bem resolvidas financeiramente, com bons apartamentos, ensino superior, com tempo pra fazer um monte de coisa. Atualmente tenho tomado cuidado com a quantidade de tempo que passo vendo séries. É muito tempo de vida passivo tendo a atenção roubada

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