Mais que a própria guerra: resposta a um militante do MES

Declaração política do PCB acerta ao não permitir que palavra de ordem pela paz sobreponha-se à coragem de condenar o imperialismo, de nomear o capitalismo como verdadeiro culpado do conflito e de declarar inaceitável qualquer submissão à narrativa euro-atlântica do bom-mocismo ucraniano.

por Raul Floriano

Militante do Movimento Esquerda Socialista (MES) publicou, no site de sua organização, uma corrente do PSOL, texto crítico à declaração política do PCB, recentemente elogiada em nossa análise acerca das notas de esquerda sobre a guerra na Ucrânia. Apesar de insistirmos que é superestimada a relevância deste tipo de debate para a atual luta de classes brasileira, de nota ruim e briga boa não se foge.

“Parece o discurso do Putin”

A primeira crítica do camarada Edmar à nota política do PCB consiste em afirmar que este reproduziria discurso do Putin ao analisar a invasão russa, inclusive empregando a terminologia do Kremlin para descrevê-lo, valendo-se de “operações militares especiais” no lugar de “guerra”.

Bem, além da vileza do argumento, há outro detalhe: o termo “guerra” já aparecera na consigna da declaração e volta ao corpo do texto, que afirma que “os interesses das burguesias estadunidense e russa são evidentes na luta pela partilha do mundo capitalista e a guerra não interessa aos trabalhadores”. É fundamental ler o texto que se critica.

Sejamos justos, porém. O argumento é mais profundo. O PCB estaria “quase” ao lado do presidente russo por afirmar que o conflito é motivado pela entrada da Ucrânia na OTAN. E não é? Se um dos pontos principais das negociações de paz tem sido justamente esse? Se Zelensky reconheceu que a entrada da Ucrânia na aliança, incensada dias antes da invasão, é inadmissível?

Se a acessão da Ucrânia à OTAN representaria permanente ameaça de guerra entre a Rússia e a Aliança, sobretudo diante do estado atual da Crimeia e a possível ativação de seu mecanismo de defesa coletiva (artigo 6º)? Se era essa a principal demanda russa nas negociações que precederam a invasão da Ucrânia? Apesar do óbvio, as acusações sobre a inadmissível posição do PCB nessa linha continuam.

Afinal, o partido estaria reproduzindo a narrativa do Kremlin também ao afirmar que o reacionário governo de Kiev estaria massacrando as populações russas do Donbass. A fineza da ironia nos impediu de entender a crítica: o governo ucraniano – que proibiu partidos comunistas em 2015 e vedou partidos de oposição há alguns dias – não é reacionário? Ou não existe perseguição e massacre no leste ucraniano, em um conflito que já vitimou mais de 13.000 pessoas e estendeu-se, em grande parte, devido ao não cumprimento pela Ucrânia dos Acordos de Minsk? Ou os dois? Reina o mistério.

O indesculpável PCB vai além: afirma que a guerra tem como pano de fundo “a pressão que vem sendo exercida pelo governo dos Estados Unidos junto aos países que compõem a Otan para expandir essa organização militar”. Poderíamos aqui fazer referência às inúmeras gestões do Departamento de Estado norte-americano nesse sentido, às expansões da aliança euro-atlântica para o leste desde 1999, à Conferência da Otan de Bucareste (2008), à centralidade da organização para o militarismo norte-americano, mas fiquemos com …a nota do MES sobre o conflito: “A manutenção da OTAN após o fim da Guerra Fria e sua expansão para o leste demonstram a posição cínica do imperialismo estadounidense”. É fundamental, também, ler os textos de sua própria organização.

Críticas baratas

O debate na esquerda, inócuo ou não, deve ser firme, mas respeitoso. Se aquilo que o “PCB escreve, merece ser lido”, leia. E não recaia nos infindáveis espantalhos que desgastam a militância a troco de nada.

Acusa-se o PCB de ignorar a luta de classes e só falar de geopolítica. Queremos crer que tratou-se de crítica apressada do autor, excesso de ímpeto polemista ou, como parece ser o caso, a velha e requentada implicância gratuita. Caso contrário, deveríamos admitir que o autor ignora a centralidade da luta de classes para a compreensão da estratégia de suas reproduções no âmbito espacial com mediação de estruturas estatais. Isto é, seríamos obrigados a ver na crítica uma leitura de que geopolítica e luta de classes não são determinações recíprocas. Lenin nos livre!

Apostamos na teoria da picuinha desenfreada também porque a própria nota do MES empreende análises geopolíticas acerca do conflito entre os países – para surpresa de um total de zero pessoas. Afinal, estamos analisando um conflito (!), entre países (!), cujas classes dominantes possuem interesses geopolíticos. Sem contar que a declaração política do PCB não narra uma “pantomima de ações e interesses dos países”, mas disseca os interesses das burguesias alemãs, russas e estadunidenses que, ao lado do fracionamento da burguesia ucraniana, estão na base da guerra. Por favor.

Igualmente deselegante é dizer que o início de um parágrafo da declaração política do “partido mais antigo do Brasil” é mero lampejo de consciência que não produz consequências. Trata-se do parágrafo em que o PCB condena a política russa. Ora, se o camarada estava incomodado com a falta de crítica do partido ao expansionismo e à autocracia russos, não basta dizer que essa posição não tem efeito. Que consequência haveria de ter o texto de uma declaração política, se não a de declarar justamente o que se escreve?

Pior que isso seria apenas se o autor repreendesse o texto por algo que não está, de fato, escrito nele. Como se o autor acusasse, suponhamos, o PCB de defender a independência das autoproclamadas repúblicas do Donbass. Ah, sim: infelizmente, não será preciso supor.

“E importa quem estará nas trincheiras ao teu lado”?

A essência da crítica à declaração política parece consistir, contudo, no fato de o PCB limitar-se a condenar a guerra e não encampar a luta pela paz, ao lado da Ucrânia. A justificativa é portentosa: “quando os princípios estão em jogo, não escolhemos quem marcha ao nosso lado”.

É o mesmo principismo abstrato de que sofre a nota do MES. Como foi Putin que iniciou a guerra, deveríamos todos chancelar seus oponentes. Temos de ser, abstratamente, à favor de uma paz abstrata em uma Ucrânia abstrata.

Ora, isso é ignorar não só quem são esses oponentes, mas também a realidade concreta: devemos marchar para que a guerra evapore? Colocar-se ao lado da Ucrânia – e não só ao lado da classe trabalhadora ucraniana, como faz o PCB – significa o quê na realidade? Não ficar ao lado de Zelensky e de suas milícias neonazistas é ficar quase ao lado de Putin?

Repito as mesmas perguntas que aventei em texto anterior: De que paz se fala? Marchar pela paz é cobrar, com muito jeitinho, que Moscou retire suas tropas, defendendo o status quo ante? É pedir, educadamente, que Putin volte a ser ignorado nas discussões no Formato de Normandia sobre os protocolos de Minsk, acordos sabotados desde 2015 e cujas decisões a Ucrânia solenemente ignorou mesmo após a Cúpula de Paris de 2019? É a devolução da Crimeia que decidiu por referendo popular a própria desanexação da Ucrânia? Ou é defender que o referendo foi uma farsa?

A autodeterminação dos russos de Luhansk e Donetsk é válida ou essas “repúblicas” não passam de fantoches de Putin? A política de portas abertas da OTAN vale para a Ucrânia ou a segurança é mesmo conceito indivisível, e um país não deve poder aumentar sua segurança às custas de outros, como a OSCE pensou em Istambul (1999) e Astana (2010)? As propostas de garantias de segurança do Kremlin para EUA e OTAN eram irrazoáveis ou a solução diplomática tinha, de fato, sido esgotada?

Nada disso importa para o idealista. Pior, não lhe basta responder que a solução para o conflito passa pela unidade da classe trabalhadora russa e ucraniana na superação do capitalismo.

Não desconfia o crítico que defender a Ucrânia hoje é defender o comandante-em-chefe de neonazistas armados, que lidera a resistência. Não lhe incomoda que a saída almejada por esse líder é a decretação de uma zona de exclusão aérea no país, arrastando a OTAN para um conflito potencialmente nuclear. Pouco lhe interessa que o combate à Rússia hoje se dê por implementação de sanções unilaterais que sufocarão com miséria a classe trabalhadora de todos os países. Não lhe diz respeito que seus pontos coincidam exatamente com a posição do Departamento de Estado norte-americano.

O que importa é marchar. Ao lado da Otan? Marchemos. Ao lado dos nazistas do Azov, do Aidar, do Priviy Sektor, do S14? Vamos, camarada, marchemos. Ao lado do centro do capitalismo? Os princípios, camarada, não importa quem está ao seu lado. Mas dizem os sábios que o diabo mora mesmo nos detalhes. Vejamos. O autor das críticas incomodou-se com o fato de que o Partido Comunista Brasileiro tenha como uma de suas preocupações centrais o armamento de batalhões e milícias abertamente neonazistas, fortemente armadas em um país em rota de caos.

Mais uma vez: incomoda ao autor comunista que um partido comunista preocupe-se com neonazistas: armados com mísseis antiaéreos portáteis; em um país que proibiu os partidos comunistas em 2015; e já recebeu quase um trilhão de dólares do Banco Mundial, dos Estados Unidos e de países ocidentais; incluindo ajuda em gastos militares e fornecimento de armamentos. Bem, eu me preocupo. E todos deveriam preocupar-se.

Apesar da profunda discordância com as escolhas de perspectiva adotadas pelo autor, não entendo que sua intenção seja de minimizar o flagelo ultranacionalista que se abate sobre a Ucrânia (e também sobre a Rússia). Assim como não creio que seu entendimento aceite que o PCB compactuaria com a máquina de guerra do Kremlin.

O tom adotado foi ríspido – e correspondido. Mas em tempos em que o internacionalismo proletário ainda engatinha, muito mais valem as lutas para organização da classe trabalhadora e construção do poder popular que MES e PCB, de fato, encampam. Não comungo na mesa de seitas que acreditam que divergências políticas sobre conflitos que nossas organizações são incapazes de influenciar suplantem as convergências para a necessária luta de classes no Brasil. Dediquemo-nos a ela.

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