Cem flores vermelhas ao Partidão

Partido Comunista Brasileiro (PCB) completa 100 anos alicerçado em síntese entre ética radical, cultura brasileira e leninismo.

por Golbery Lessa

Interior do Paraná, segunda metade dos anos 1950. Nas empoeiradas ruas da pequena cidade povoada de migrantes vindos de todo o Brasil, o padre decide fazer mais uma procissão contra os comunistas. Diante daquele fervor “religioso”, um casal de militantes do PCB, que deixara Alagoas para fugir da perseguição política, traz os filhos para varanda da pequena casa de madeira, típica da região sul, coloca a Internacional na radiola e todos a cantam com o punho esquerdo erguido, enquanto os fiéis passam entoando hinos católicos conservadores. A cena verídica sintetiza a atitude da militância comunista no Brasil nos últimos cem anos. 

A quantidade de indivíduos que milita em partidos políticos sempre foi, em média, ínfima em relação ao número de habitantes em qualquer país. Em torno de 1 a 2%. Isto ocorre porque a militância é atividade árida, difícil, com poucos momentos de satisfação e que geralmente requer muito dispêndio de tempo, além de levar à multiplicação dos conflitos na vida do/a militante. Então, a maioria das pessoas tem até dificuldade de entender o que faz alguém se dispor a participar de um partido. O espanto aumenta quando a militância ocorre em partidos de esquerda. 

Por outro lado, é evidente que o complexo da política – que não se resume ao Estado, instituição limitada e superável, diga-se de passagem – é o único que une a reflexão sobre os problemas gerais da sociedade e a possibilidade prática de resolvê-los. Portanto, a política é, como já sabiam os gregos, o único espaço de uma ética plena, que não se limita à ajuda pontual a quem precisa e nem à mera afirmação discursiva dos melhores valores humanos.

Foi esta busca de uma ética radical, sem qualquer concessão a uma moral individualista ou paternalista, que moveu alguns operários na fundação do PCB em 25 de março de 1922, sob o teto de pequena casa de Niterói. Claro que, além disso, estavam influenciados pela cultura política brasileira e pelo exemplo dado pelos bolcheviques em 1917. A história do PCB será, então, nos cem anos que se seguiram até o dia de hoje, determinada por uma síntese entre atitude ética radical, sem concessão a qualquer valor que não fosse compreendido como socialista, cultura brasileira e leninismo. Os acertos e os erros do partido serão determinados, pelo menos no campo da subjetividade – abstraindo as causas objetivas, com a fragmentação da classe operária em vários momentos e o enorme peso do latifúndio até a primeira metade do século XX – pela interpretação destes três elementos ao longo da sua história.

A atitude ética radical dos comunistas no Brasil, com suas centenas de mártires e milhares de perseguidos/as espalhados/as por cada cidade, imantou o imaginário brasileiro até hoje e foi a base para o surgimento de outros partidos e organizações políticas de esquerda. O PCB foi o primeiro partido nacional do país, rompendo a fragmentação dos regionalismos exagerados surgidos na chamada República Velha. Foi um dos principais construtores do espaço político moderno (programa política sistemático, democracia partidária, recusa da compra de votos, incorporação de todas as etnias, religiosidades e das mulheres) e dos canais de participação das grandes massas do campo e das cidades (sindicatos, associações, movimentos sociais). Além de ter facilitado o desenvolvimento da produção cultural em vários momentos decisivos (modernização editorial e da imprensa política, sindicatos de artistas, valorização da cultura popular). 

O PCB de hoje, dia 25 de março de 2022, cem anos após aquele modesto congresso de fundação com nove delegados, aprendeu muito, evidentemente; não quer ser mais o único partido revolucionário, mas fazer parte de uma frente socialista e anti-imperialista que supere o capitalismo. Fez um sério balanço dos muitos erros das experiências comunistas no século XX, e sabe que a reafirmação do socialismo implica, entre outras coisas, a busca de uma radical democracia proletária unida à superação da propriedade privada e das burocracias que desejam tomar o poder em nome dos trabalhadores/as

A bandeira vermelha do PCB tremula há cem anos pelos campos e ruas do país. Continuará a fazê-lo pelo tempo que durar a opressão, a alienação e a miséria em todas as suas formas. Apenas será guardada quando não existir mais as opressões de classe, etnia, gênero, condição, região e nacionalidade, e for superado todo desrespeito à natureza. Então, só então, poderá descansar no leito da plena emancipação humana, possível apenas em uma sociedade efetivamente comunista.

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