Consequências da pandemia e a necessidade de ampliação de auxílio psicológico nas escolas

por Larissa Leal

Neste início de 2022, com a divulgação da concorrência nos processos de ingresso à Universidade, o curso de Psicologia chamou a atenção por ter se tornado um dos mais concorridos em várias universidades no país, em alguns lugares superando áreas tradicionalmente disputadas, como Direito e as Engenharias. Na Universidade de Brasília, ele está entre os mais requeridos tanto no PAS (Programa de Ingresso Seriado), em que o estudante faz uma prova a cada ano do Ensino Médio, quanto no SISU (Sistema de Seleção Unificada) em que qualquer estudante do país pode concorrer à vaga na Universidade usando a nota do ENEM. A explicação para esse crescimento, e não poderia ser diferente, está relacionada à pandemia da COVID-19, mas nem por isso pode ser considerada simples, pois o debate sobre a saúde mental dos mais jovens tomou novos rumos, precisando de ampliação.

Mercado de trabalho, demanda e um público que reconhece suas necessidades 

Um primeiro fator para que os jovens estejam ainda mais interessados nesse campo profissional está ligado à observação do aumento da demanda, logo, à perspectiva de crescimento do mercado de trabalho na área. Desde o início da pandemia, em 2020, vários órgãos relataram o crescimento contínuo da procura pelos profissionais de psicologia. No Distrito Federal, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-DF) divulgou, em dezembro de 2021, que os atendimentos psicológicos na rede cresceram quase 30%, comparado a 2020, com destaque para os casos de ansiedade, depressão e tentativa de suicídio. O número vai ao encontro das pesquisas realizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2021, que apontam aumento de cerca de 25% nos casos de ansiedade e de depressão no mundo todo. A organização coloca em evidência, ainda, que um dos grandes problemas nesses casos é a falta de acesso aos serviços de saúde mental e que os jovens foram um dos grupos mais afetados.  

O segundo fator é a percepção dos jovens de suas próprias necessidades. A chamada “geração Z” (nascidos entre 1995 e 2010) é, ao mesmo tempo, a que mais necessita de apoio e a que se dispõe a cuidar desse problema. Esses jovens encontraram um ambiente favorável, pois nunca antes se falou tanto em saúde mental, mas isso também ocorreu porque esta geração começou a demonstrar doenças mais cedo, e é considerada por muitos especialistas como a mais estressada, a mais propensa a transtornos justamente pela sua alta conectividade “natural” no mundo digital.  No contexto da pandemia, tudo isso teria vindo à tona de maneira ainda mais forte, como afirma um estudo realizado nos Estados Unidos pela Associação Americana de Psicologia (American Psychological Association – APA, “Stress in America™ 2020: A National Mental Health Crisis”), em 2020. No entanto, poucos são os lugares preparados para lidar com essa demanda e, como boa parte da vida de crianças e adolescentes é passada na escola, esse é um dos espaços fundamentais para se tratar a questão.  

A escola e a necessidade de ampliar o acompanhamento psicológico de crianças e adolescentes 

Não é incomum ouvir que o professor muitas vezes deve ser o que ensina, educa, e ainda sirva de psicólogo. A brincadeira, embora fale sobre a complexidade da educação, acaba também refletindo a precariedade com que a escola é tratada no país, em que o investimento em profissionais capacitados é o menor possível.

Quando se trata de psicólogos, a questão é ainda mais alarmante, visto que o profissional da área não é, ainda, considerado legalmente como essencial à equipe pedagógica, e por isso poucas unidades educacionais contam com esse profissional. Na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que coordena todo o nosso sistema, não há obrigatoriedade de garantia de recursos financeiros na rede pública para a manutenção de programas suplementares de apoio psicológico. Enquanto isso, nas escolas particulares de “alto nível”, o apoio psicológico chega a ser vendido como diferencial… Ou seja, algo que deveria ser direito de todos os estudantes passa a ser usado como “marca” para o lucro. E é claro que em um momento tão delicado, como o que passamos agora, a situação se tornaria mais crítica.

O retorno às atividades presenciais tem deixado evidente a necessidade de dispor apoio psicológico nas escolas, pois os estudantes estão visivelmente voltando ao convívio escolar com uma série de problemas dessa ordem. Segundo a Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF) o aumento dos casos foi tal que, além do encaminhamento tradicional dos alunos diagnosticados com transtornos de ordem psicológica para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou para o Adolescentro, tiveram que ser firmadas outras parcerias, como programas de faculdades públicas e particulares.

A preocupação vista ao longo desses dois anos de pandemia com o ano letivo e a organização do calendário acabou se sobrepondo a um planejamento real do retorno, que levasse em consideração as mudanças não só com relação ao distanciamento social, etc, que a pandemia impôs, mas as questões relacionadas à saúde mental dos estudantes. O Ministério da Educação mostrou-se completamente ausente nesse sentido, não encaminhando planos nem estudos que auxiliassem na retomada do sistema como um todo. Institutos de várias ordens, porém, tomaram a iniciativa e fizeram levantamentos para compreender as novas demandas educacionais para o período.

Ainda em 2020, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) lançou um documento técnico com orientações para o retorno seguro de volta às aulas, que contou também com a colaboração de especialistas em saúde mental e educação. Entre os efeitos indiretos da Covid-19 na população mais jovem, alerta-se para como o estresse afeta a saúde mental de crianças e adolescentes, gerando aumento de sintomas de depressão e ansiedade. Nesse sentido, uma das recomendações é divulgar e ampliar os serviços da rede de atenção à saúde mental nos territórios com cooperação, por exemplo, dos movimentos sociais. Assim, a Fundação foca na necessidade de planejamento coletivo para aumentar a rede de auxílio aos estudantes.

Já em outubro de 2021, quando muitas redes municipais e estaduais começaram a retomar o ensino presencial, o Instituto Península realizou a pesquisa “Desafios e perspectivas da educação: uma visão dos professores durante a pandemia”, com amostragens de todo o Brasil, e uma das principais questões destacadas foi a preocupação com a saúde mental. No entanto, a análise basicamente reduz-se à desmotivação dos alunos, sem mencionar os transtornos de ansiedade e depressão para os quais a Fiocruz já tinha alertado. O Instituto Península, uma ONG criada pela família do conhecido empresário Abílio Diniz (um dos fundadores do Grupo Pão de Açúcar, entre outros), afirma, em seu site, que “os professores são os principais agentes de transformação para uma Educação de qualidade no Brasil”, e por isso atua para a melhoria da carreira docente. Embora a afirmação seja louvável, ela acaba reduzindo os problemas do Sistema Educacional apenas ao seu agente de frente, ignorando, com isso, o papel igualmente fundamental de demais profissionais que atuam no suporte pedagógico, como é o caso dos psicólogos, e, de maneira mais nociva, o papel central das políticas educacionais governamentais.

A falta de um planejamento nacional para a questão levou a dificuldades em todos os níveis. Com o aumento significativo de demanda dos últimos anos, não é difícil imaginar o quanto essa rede necessitaria ser ampliada e estar mais presente nas unidades escolares. Entretanto, no Plano Diretor de Saúde Mental do Distrito Federal para o triênio 2020 – 2023, por exemplo, os espaços de educação só são mencionados no que se refere à capacitação para os profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) sobre as demandas de dificuldade de aprendizagem encaminhadas pelas escolas.

Perspectivas de mudança? 

Está em tramitação a lei que cria o Sistema Nacional de Educação (SNE), que visa alinhar objetivos, políticas, programas e ações da União, dos estados e dos municípios na área, em articulação colaborativa. Já aprovado no Senado, agora o PLP 235/2019 seguirá para a Câmara dos Deputados. Uma das principais mudanças propostas pela lei é nas áreas de serviço social e psicologia, garantindo a prestação desses serviços, de maneira específica, dentro das redes públicas de educação básica. Na realidade, essa inclusão é para contemplar o que já estava previsto na Lei nº 13.935, de 11 de dezembro de 2019, que afirma a importância de que as redes públicas de Educação Básica contem com serviços da Psicologia e do Serviço Social para atender às necessidades e prioridades definidas pelas políticas de educação. Um ponto fundamental é que essa inclusão deve ser custeada pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), como parte dos 30% dos recursos que podem ser utilizados pelos municípios, estados e o Distrito Federal para custear ações na área.

Esse tipo de iniciativa é importante e aponta para mudanças quanto à atenção dada ao estudante de forma integral, indo além da ideia convencional de que este é um repositório de conteúdo da escola. Entretanto, é nesse ponto que está o mais fundamental, onde as políticas públicas atuais encontram o seu limite: enquanto a escola for encarada como centralmente formadora de profissionais para o mercado de trabalho sob a forma capitalista, os jovens continuarão a se estressar e frustrar, cada vez mais cedo. A construção de uma educação verdadeiramente integral visa à construção de seres humanos livres, formados para o trabalho, mas igualmente para suas satisfações sociais e individuais, em que suas escolhas não sejam definidas pelo conflito entre as necessidades materiais imediatas e seus anseios de vida. A escolha pela psicologia, nesse momento, por tantos jovens, é um forte indício da urgência por uma nova humanidade para uma nova sociedade.

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