Ucrânia: a guerra das notas de esquerda no Brasil

Defesa incondicional da paz, defesa da Ucrânia, defesa da Rússia, defesa da revolução socialista: afinal, qual a política correta da esquerda diante do conflito na Eurásia? Confira algumas posições as organizações brasileiras

por Raul Floriano

O roteiro é familiar à esquerda. Espoca uma guerra ou revolução em qualquer quadrante obscuro do globo e é dada a bisonha largada: especialistas na história das estepes asiáticas emergem não se sabe de onde, estudiosos com nomes impronunciáveis tornam-se membros da família – “ora, mas eu sempre acompanhei o Yevgeniy Kazhiekhanov Adikariev no twitter” – e vai se criando a enorme expectativa acerca do posicionamento dos partidos: quem será esquerdista demais, quem pecará pelo direitismo, qual fará a análise mais justa, quais preverão corretamente o futuro?

A coisa toda vira um grande esporte. Não condeno, sou fiel praticante. Mas, mesmo no caso da guerra russo-ucraniana, talvez o mais decisivo conflito do século XXI, é difícil precisar o significado de notas de apoio ou repúdio de alguns partidos, discretos, incrustrados aqui no coração do hemisfério sul da América católica.

São testes de conhecimento geopolítico? Exames morais hipotéticos (“se sua opinião fizesse alguma diferença no desfecho do conflito, de que lado você estaria?”)? Orientações para a militância? Sinalizações para aliados locais e internacionais, na construção do internacionalismo proletário? Talvez um pouco de tudo.

Fato é que as notas, tenham maior ou menor importância, revelam um pouco dos partidos e movimentos que as subscrevem. É o que justifica, além da curiosidade, o presente levantamento das posições dos partidos em relação à guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

A defesa abstrata da paz

Condenar a guerra e exortar a paz imediata é posição tão idealista quanto inócua. Como disse a presidenta Dilma, a paz vira palavra de ordem vazia quando se ignora as causas do conflito. De que paz se fala?

É dizer para Moscou retirar suas tropas, defendendo o status quo ante? É pedir que Putin volte a ser ignorado nas discussões no Formato de Normandia sobre os protocolos de Minsk, acordos sabotados desde 2015 e cujas decisões a Ucrânia solenemente ignorou após a Cúpula de Paris de 2019? É a devolução da Crimeia que decidiu por referendo popular a própria desanexação da Ucrânia? Ou é defender que o referendo foi uma farsa? A autodeterminação dos russos de Luhansk e Donetsk é válida ou essas repúblicas não passam de fantoches de Putin? A política de portas abertas da OTAN vale para a Ucrânia ou a segurança é mesmo conceito indivisível, e um país não deve poder aumentar sua segurança às custas de outros, como a OSCE pensou em Istambul (1999) e Astana (2010)? As propostas de garantias de segurança do Kremlin para EUA e OTAN eram irrazoáveis ou a solução diplomática tinha, de fato, sido esgotada?

Ignorar a realidade e clamar pela solução pacífica passa a aparência de correção moral, evitando erros desnecessários pela via de um conservadorismo imparcial. Não por acaso, é o caminho traçado por organizações marcadas por maior institucionalidade: o governo brasileiro, o PT e o PSOL rezaram essa cartilha.

“A solução do contencioso entre Rússia e Ucrânia deve se dar de forma pacífica, utilizando todas as possibilidades de mediação em fóruns multilaterais.”. É o que diz a nota do PT, de três singelos parágrafos. A posição do governo brasileiro foi, em essência, a mesma, defendendo a “suspensão imediata das hostilidades e o início de negociações conducentes a uma solução diplomática para a questão”.

Mas é preciso a pureza quase infantil do PSOL para adicionar um tempero à posição dos que não podem ou não querem ter uma posição clara: o partido é “contra a guerra porque quem sofre suas consequências é o povo trabalhador destes países”. Corretíssima afirmação. Ao preço de não dizer nada.

A posição do PSOL, porém, destaca-se também por ser a única dentre as três que dá um indicativo de sua inclinação, sempre desnudada por omissões: apoiam a autodeterminação dos ucranianos, mas são silentes em relação à autodeterminação dos russos do Donbass e da Crimeia, ponto fundamental da guerra.

Posições pró-ucranianas

Se a posição do PSOL é nuançada, o mesmo não pode ser dito de algumas de suas correntes. A CST, reproduzindo nota da UIT-QI, diz apoiar a resistência do povo ucraniano contra o invasor, mas que faria isso sem apoiar Zelensky, nem confiar em sua condução político-militar.

Bem, aqui é bom tomar nota de que é o presidente Volodomir Zelensky quem comanda a resistência ucraniana, tão incensada pela mídia. É ele, também, que auferiria os louros de uma improvável vitória. O que fazer diante disso? Sabe-se lá.

A CST também é clara em relação ao caráter interimperialista do conflito, outro tema candente na belicosa bolha da esquerda: o conflito não seria interimperialista pelo simples motivo de que a OTAN e os EUA não têm tropas no terreno ucraniano. Capital-imperialista, no conflito, é apenas o presidente russo. O envio de armamentos, o apoio com treinamentos, a inundação de bilhões de dólares feita ao caixa ucraniano por via bilateral ou pelo Banco Mundial não são suficientes para enxergar no avanço ucraniano qualquer intervenção imperialista. Sigamos.

Há outra maneira de se colocar ao lado da Ucrânia. Embora mais coerente, peca por um simplismo constrangedor: é a versão foi-ele-quem-começou da geopolítica internacional. A nota da Transição Socialista enuncia o princípio com clareza: “como foi Putin quem iniciou a invasão imperialista, aproveitando a brecha das grandes potências, é ele quem deve ser derrotado primeiro”. É, com menos transparência, a posição da nota política do MES, que, após sopesar o imperialismo russo e estadunidense, considera incontornável o fato de que, agora, é a Rússia o invasor.

Para se fazer justiça à nota da Transição Socialista, porém, é preciso dizer que ela não se restringe a esse princípio. Enuncia também que estamos diante de uma agressão imperialista contra uma “nação frágil” e que as liberdades políticas são maiores na Ucrânia. Defendem, ainda, que uma derrota de Putin poderia levar a um levante interno contra o presidente. Com a burguesia feita ainda mais dependente de seu sistema cleptocrático, a hipótese parece absurda. Menos absurda que a tese de que a preocupação da OTAN se restringe a impedir a remilitarização alemã, mas, ainda assim, pouco provável.

O PSTU, é claro, vai além. Reproduzindo nota da LIT-QI, chama Donetsk e Luhansk de falsas repúblicas independentes, clama pela devolução da Crimeia à Ucrânia, e crava que a invasão russa reproduz a barbárie nazista. O objetivo de desnazificação da Ucrânia? Não passaria de mentira do Kremlin, reproduzida pelos seus “acólitos estalinistas”. Bem, ao menos não se pode criticar aqui a falta de clareza da posição.

Posições pró-russas

O PCO tampouco brinca em serviço, mas do lado contrário: segundo sua Comissão Executiva, os EUA são responsáveis pelo conflito; todas as lutas contra o imperialismo são lutas de libertação nacional; milícias nazistas eram a linha de frente dos protestos de 2014 (Euromaidan). Já no título de sua nota, a conclusão do raciocínio: apoio total à ação da Rússia na Ucrânia.

A LBI é igualmente clara: seu lado na guerra é o da Rússia e das Repúblicas Populares, acusando a “família histórica de traidores da classe operária internacional (PSTU, CST, MRT, POR)” de estar ao lado do imperialismo ianque, domesticada que estaria por sua classe financeira. Chamar o conflito de interimperialista seria apenas uma manobra para justificar essa traição.

Se chamam a atenção pela clareza e estridência com que defendem suas posições, os gritos não abafam as carências da reflexão: qual é o limite para esse apoio ao avanço do Kremlin? A lógica adotada é universalizável? Basta que uma posição não seja do interesse norte-americano para que a defesa incondicional do lado contrário se justifique?

Não parece coincidência que a linguagem mais acusatória contra a própria esquerda (ao lado do PSTU) saia justamente de onde a posição parece mais firme: o ímpeto acusatório e salvacionista parece exigir uma certeza, e não o contrário.

Não há solução dentro do capitalismo

A posição crítica aos dois lados da guerra, de combate ao capitalismo imperialista e em favor de uma construção socialista nos países envolvidos é o que se espera de uma nota política de esquerda acerca do conflito.

É, como a primeira posição, quase institucional, de pouco comprometimento. Mas é razoável que a esquerda brasileira não ofereça soluções práticas para o conflito que se desenvolve na Eurásia. O que não é aceitável é que a palavra de ordem da paz sobreponha-se à coragem de condenar o imperialismo, de nomear o capitalismo como verdadeiro culpado do conflito e de declarar inaceitável qualquer submissão à narrativa euroatlântica do bom-mocismo ucraniano.

A nota política da liderança do PT no Senado (Paulo Rocha, PT-PA) demonstra, nesse sentido, que a militância petista que aprendemos a respeitar ainda possui legítimos representantes no partido. Mas ela expõe igualmente que as louváveis posições desses militantes seguem em processo agudo de silenciamento: a nota corajosa começava com clara condenação à política belicosa e imperialista dos EUA e da OTAN, mas foi logo apagada por ordens da direção.

Os maoístas da Nova Democracia seguiram caminho semelhante, embora repisassem o caráter interimperialista do conflito. O mesmo fez a Resistência-PSOL, que descreveu a Rússia como “potência associada regional” do imperialismo chinês. O MRT, reproduzindo nota da Fração Trotskysta da Quarta Internacional, foram dos poucos que lembraram que o conflito tem origem no fracionamento da burguesia ucraniana entre pró-ocidentais e pró-russos, embora a caracterização indistinta dos governos chinês e russo como bonapartistas careça de embasamento.

A UP, ao dizer não fazer sentido escolher um “imperialismo para chamar de seu”, em nota assinada por dirigente, associou-se a essa posição, defendida após prolixa reconstrução histórica. É uma pena que o partido tenha que dividir com o PSTU o título inglório de notas caça-fantasma: foram as únicas organizações que identificaram, em setores de esquerda, a crença de que Putin intentaria reconstruir a ex-URSS. Desnecessário dizer, não se encontrou esquerda alguma que reivindicasse o tal posicionamento.

Contextualização acertada fez a nota do CERCI, reproduzida pelo POR, com denúncia acerca do capital parasitário represado nos EUA, da exploração russa do espaço pós-soviético e da falta de saída de Putin – o verdadeiro nó górdio do conflito. Pela qualidade, quase quisemos relevar, durante sua leitura, o insistente erro de localizar em Budapeste a Conferência da OTAN de 2008, realizada em Bucareste.

Por fim, a declaração política do PCB não caracterizou o conflito como interimperialista, optando por condenar a aliança euroatlântica e a ação da burguesia russa. Muito corretamente, lembrou o papel da disputa do capital estadunidense e alemão, como também o fez apenas o PSTU e, com muitos exageros, a Transição Socialista.

É de se duvidar que uma nota sóbria e correta acerca da guerra russo-ucraniana tenha maior relevância no contexto da esquerda brasileira atual. Afora aos aficionados pelo esporte da geopolítica, o posicionamento milimetricamente coerente de uma organização não carrega maior consequência para a luta real que se trava no momento. Dediquemo-nos a ela.

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