Carolina Maria de Jesus: escritora “negra e favelada”

Em 14 de março último, no mês de luta da mulher trabalhadora, Carolina Maria de Jesus completaria 108 anos de idade. Relembre a trajetória dessa escritora singular

por Larissa Leal

No ano em que se inaugurava Brasília, o sonho de modernidade para o novo país, a intelectualidade brasileira se ouriçava ao tomar conhecimento do lançamento de um livro de uma escritora “negra e favelada”: Carolina Maria de Jesus (1914-1977).

Quarto de Despejo, lançado em agosto de 1960, apareceu desde o início como algo exótico, uma curiosidade literária e social. Nas colunas em que era citado, o nome da escritora vinha sempre acompanhado por essa coisa excêntrica aos olhos dos leitores da época: “favelada” e, mais ainda, “negra e favelada”. Antes mesmo de seu lançamento, a notícia percorrera os jornais, tamanha a improbabilidade do fato para o público.

Com o tempo, a história em torno ao livro se tornaria conhecida: a escritora e catadora de papel na Favela do Canindé (SP), que construía seus próprios cadernos com o que achava no lixo; o jornalista Audálio Dantas, que encontra os escritos, “resgata-os” e decide lançá-los; o contrato com a Livraria Francisco Alves, consagrada na época, que coloca o livro como primeiro número da coleção “Contrastes e confrontos”.

A pesquisadora Luciana Paiva Coronel, no trabalho Literatura de periferia e mercado: reflexões acerca do caso Carolina Maria de Jesus ressalta que o interesse dos editores da época era justamente pela realidade ali descrita, e não qualidades literárias – e assim a obra foi divulgada para os leitores. Aliás, a pesquisadora afirma que, na verdade, não deixavam de falar sobre os seus problemas gramaticais, afinal, ela tinha pouco estudo, mas homens que fizeram as edições de seus cadernos funcionavam como autoridades que garantiam o interesse pela leitura. Era, portanto, “uma coisa estranha”. Não poucos críticos e escritores hesitaram em chamá-la arte, ainda que reconhecessem a autenticidade e riqueza desse “depoimento”.

A curiosidade para o público “ledor” (aqueles que não apenas sabem ler, mas cultivam a leitura pelo gosto) pode ser explicada, então, em parte, pela própria característica de um país em que o analfabetismo ainda atingia metade da população. Os que sabiam ler estavam, sobretudo, nas cidades, e não pertenciam às classes trabalhadoras mais pobres. Não conheciam, portanto, a vida das favelas mais do que o olhar de longe, o ouvir falar. No jornal Diário Carioca, de 14 de agosto de 1960, essa distância aparece cruamente na análise de um crítico: “o depoimento vivo e atual de uma personagem que estamos acostumados a ver de longe, e achar muito pitoresco, e que de repente vai entrar pela nossa casa adentro para dar testemunho de seu destino”.

Carolina Maria de Jesus. Foto: Audálio Dantas

O êxito de vendas de Quarto de Despejo e da vida de celebridade de Carolina se deu em poucos meses: até o fim de 1960 apareceram as muitas propostas de tradução para diversas línguas, convites para participação em programas de televisão, feiras literárias internacionais, e uma rede televisiva queria adaptar sua história. O mercado da cultura de massas parecia já sabia bem como lidar com as novidades rentáveis.

Uma escritora já consagrada, Dinah Silveira de Queiroz, que assinava uma crônica diária no Jornal do Commercio, faz uma série de artigos sobre a nova autora, comentando trechos de seu livro. Em um momento de outubro de 1960, ela destaca o convite que Carolina recebeu para conhecer uma das casas noturnas mais badaladas da elite carioca, o Sacha’s, e fala sobre comentários que diziam que “era brincadeira, que a escritora favelada jamais desejou pôr os pés lá”, mas questiona: “Mas Carolina Maria de Jesus, que agora conhece o outro lado da cidade, o lado dos vencedores, deve ter a curiosidade de ver de perto um reduto da grã-finagem. Está em seu direito”. Para Dinah, poderia ser, inclusive a oportunidade de Carolina fazer “a seu modo, a melhor crítica-social do ano”, a crônica de “A favelada no Society”, uma oportunidade de encher de vergonha essa camada social.

Não foi o que aconteceu. Carolina Maria de Jesus, que amava as palavras e queria mesmo ser poeta, escreveu ainda outros livros, como Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada (1961), Pedaços de fome (1963) ou Provérbios (1965). Nenhum deles fez tanto sucesso quanto sua obra de estreia. Seu destino acabou sendo o que previra o escritor Paulo Mendes Campos, em crônica de setembro de 1960, no Diário Carioca:“Pobre pelos seus sofrimentos e pobre pelo que irão fazer dela, dar-lhe algum dinheiro, uma casa, arrancá-la da pobreza. É o que sempre fazemos: retiramos do país desconhecido da miséria as poucas pessoas que chegam de lá. Damos a ela um prato de comida ou uma casa, procuramos incorporá-las à nossa companhia, mitigamos os ardores da nossa consciência. Essa é a finalidade da esmola: esquecer a ferida”.

O que chocava o escritor era que, afinal, as pessoas se mostrassem tão surpresas com a existência da miséria: “A favela está ali; a fome, a mortalidade infantil e as doenças são domínios estatísticos; a desgraça se mede por uma subtração entre os níveis salariais e o preço das utilidades. No entanto, é como se ninguém soubesse, no entanto, é preciso que as crianças morram à nossa porta para que a revelação da infelicidade coletiva surpreenda e desagrade a nossa boa consciência”.

Assim, a mesma burguesia que consumiu sua primeira obra negou-lhe o sucesso duradouro como verdadeira escritora. Como analisa Luciana Coronel, sempre negaram a individualidade da autora “favelada”, seu talento como escritora, reduzindo sua produção a algo exótico, apenas como testemunho grosseiro de uma realidade que todos sabiam que existia, mas que não queriam ver de perto. Satisfeita a curiosidade, e “permitindo” que a Carolina recebesse o mínimo pelo seu trabalho, deixaram-na cair em esquecimento.

É por isso que ler sua obra hoje é fundamental: para conhecer a realidade que ela representa, mas também para reconhecer a qualidade de sua obra de arte, lembrando, por fim, como a reduziram à exposição exótica temporária de uma mulher negra e pobre que sabia escrever sobre o que vivia. Lembrando, mas revertendo essa história, para não existirem outras:

…os politicos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido.

2 comentários

  1. Realidade vivida e tão atual das mazelas sociais e econômicas na contemporaneidade. Parabéns! Excelente texto e que emerjam mais Carolinas nessa selva de pedras que é o nosso Brasil!

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