Branco sai, preto fica: aspectos do racismo na evacuação dos refugiados da Ucrânia

Imigrantes negros impedidos de deixar a Ucrânia no início da guerra são uma das expressões do racismo que permeia um sistema social e político forjado pelos conflitos do capitalismo

por Bruno Daschieri

Em meio à multidão aglomerada a céu aberto na fronteira com a Polônia, uma mulher negra segura entre os braços uma criança de poucos meses, tentando que ela tome a mamadeira, lutando para protegê-la do frio que castiga a todos durante a noite. A mulher usa uma máscara cirúrgica, já que a pandemia ignora as disputas humanas, mas não chega a desaparecer das preocupações de quem luta pela própria vida, lado a lado, fumegando juntos, em busca de calor humano para seguir sua travessia. As grades do posto de fronteira são abertas apenas para pessoas de pele clara, indiferentes ao que possa estar atravessando os pensamentos e os corações das mães e dos pais africanos, ou de pele escura, que tentam fazer com que suas crianças e seus próprios corpos sobrevivam para alimentar o sonho de escapar à guerra.

Os olhos fixos no trem, corpos estáticos, com os braços estirados ao longo do corpo, estão perplexos e exaustos. Homens negros aguardam sob a neve que vai se acumulando sobre suas cabeças e malas. Nas estações de trem, grupos de homens brancos, uns armados e uniformizados, outros com trajes civis, bloqueiam o acesso de pessoas negras aos vagões que levam os refugiados para as fronteiras da Ucrânia. Outro vídeo mostra uma mulher negra, com criança de colo, sendo obrigada a se levantar para ceder lugar a outra mulher, esta de pele branca. Oficiais armados peneiram os vagões identificando pessoas de pele escura para expulsá-las dos trens, priorizando a fuga de refugiados brancos.

Em outra cena, agentes do governo polonês submetem à força e retiram o passaporte de um jovem negro que acabara de entrar no país fugindo da guerra. As câmeras dos celulares captam a aflição do jovem, sua tentativa de escapar dos três homens brancos, com calças militares e jaquetas oficiais, que o imobilizam no chão e o carregam para dentro de uma sala restrita, longe dos registros. Segundo o The Guardian, pessoas de cor fugindo da Ucrânia são atacadas por nacionalistas poloneses. Durante a noite, em uma das fronteiras que serve de rota aos refugiados, militares ucranianos são filmados agredindo negros e indianos com pontapés e empurrões, arrastando seus corpos fragilizados e indefesos, que aguardavam, sentados no chão e com frio, a efetivação de seu direito de escapar de um território em guerra.

Só branco, sem preconceito

Alexander Somto, nigeriano que vivia na Ucrânia durante o início do conflito com a Rússia, afirma que “nas estações de trem aqui de Kiev, crianças primeiro, mulheres em segundo, homens brancos em terceiro e, então, o restante é ocupado por africanos. Isso significa que esperamos muitas horas pelos trens e não pudemos entrar por conta disso. A maioria dos africanos ainda está esperando para ir à Lviv. Tivemos que gritar e empurrar mulheres africanas para dentro do trem, para que não tivessem opção a não ser deixá-las entrar, já que estão priorizando mulheres e crianças”. Dois dias depois, na fronteira com a Polônia, Alexander denuncia o que chama de “hierarquia racial”, já que polícia e exército deixam a população africana desamparada, sob frio intenso, ameaçando atirar em quem desobedecer as restrições. Muitos desistem da travessia ao se deparar com tais condições nas fronteiras e buscam retornar à Lviv.

A embaixadora da Polônia na Nigéria, Joanna Tarnawska, rejeitou as alegações de tratamento discriminatório na fronteira. Anatoliy Tkach, da embaixada da Ucrânia no Brasil, diz acreditar que “autoridades ucranianas não têm preconceito e estão dando esse apoio a todos, sem depender da cor da pele”, relatos de racismo seriam “uma campanha de desinformação”. A União Africana, entidade que reúne os 55 países do continente, condenou publicamente o tratamento dispensado aos cidadãos de países africanos na Ucrânia.

A questão dos refugiados faz parte da crise que conforma a existência da União Europeia (UE) e que possui diversas faces. A livre circulação de pessoas e bens dentro do território da UE depende da produção de uma identidade europeia, sustentando a identificação das populações dos países membros, que se constrói de modo relacional, opondo europeus a não europeus. O modo com o qual a UE e os governos nacionais europeus tratam a questão dos refugiados é contrária aos direitos humanos, por mais que se esforcem por afirmá-los nos depoimentos das lideranças e nos documentos que implementam as políticas de migração. Tratar refugiados como imigrantes retira o foco das crises humanitárias que levam essas pessoas a deixarem suas terras, é um exemplo dessa espécie de truque de mágica que opera no discurso. O fato da concentração de riqueza em território europeu ter origem nas guerras coloniais é outra das contradições que se pretende ocultar.

Por trás do discurso que interpreta a presença dos refugiados como um problema migratório, alimentando a xenofobia, está a vantagem que essa massa humana dá aos interesses de precarização da qualidade de vida da classe trabalhadora, pois, sem garantias trabalhistas ou de cidadania, os refugiados tendem a aceitar empregos em péssimas condições, onde são superexplorados e, de quebra, forçam para baixo os salários oferecidos no mercado. Essa situação, que desvia a atenção dos interesses econômicos relativos à presença dos refugiados, joga os trabalhadores uns contra os outros. Esse ponto é crucial para compreendermos como o racismo se atualiza na crise atual e como a mídia vem cobrindo o caso.

Revoluções, refugiados

No conflito russo-ucraniano, as rotas de fuga dos refugiados surgem principalmente do norte e do leste da Ucrânia, territórios com presença dos grupos nacionalistas de extrema direita que apoiam e são apoiados pelo governo de Kiev. O fortalecimento desses grupos está intimamente ligado à “revolução colorida” de 2014 na Ucrânia.

“Revoluções Coloridas” são uma das formas de conflito, elaborada após o fim da Guerra Fria, para implementar a dominação imperialista através da manipulação das massas insatisfeitas da população dos países alvo. Façamos, portanto, um breve retrospecto para contextualizar a produção da revolução de 2014.

Em 1941, durante a 2ª Guerra Mundial, parte da população ocidental da Ucrânia saudou a invasão nazista e colaborou com os alemães contra a URSS. Vários batalhões de voluntários se formaram. A maioria das organizações nacionalistas que prosperaram desejavam constituir uma população “etnicamente pura” e independente, legitimando o uso do terror. Aproximadamente 200 mil judeus foram vítimas desses grupos durante a segunda guerra.

Com o fim da URSS em 1991, a Ucrânia passa a ser um estado independente da influência do extinto bloco socialista e sofre os efeitos das políticas neoliberais, que alteraram significativamente o ordenamento social e a qualidade de vida das classes trabalhadoras. A concentração de renda acelerou, fundos e bens públicos foram apropriados por privatizações e importantes polos industriais foram desestruturados. Relatórios da CIA informam que, pelo menos desde 1946, os EUA se empenharam na aproximação com grupos nacionalistas na Ucrânia, mesmo sabendo da natureza nazista destes grupos.

Em 2004, a “revolução laranja” foi bem-sucedida em conduzir à presidência ucraniana um governo pró-ocidente, apesar das urnas eleitorais terem apontado vitória de Viktor Yanukovytch, tido como pró-russo. Em 2010, mais uma vez pelo voto, Yanukovytch voltou a ocupar a presidência do país, fato aparentemente inaceitável para os interesses do capital europeu e norte-americano.

O adiamento de um acordo econômico com a UE, em 2013, foi a oportunidade que os líderes dos três maiores grupos nacionalistas de extrema-direita (o partido Svoboda, o Setor Direita e a milícia Azov) aproveitaram para impulsionar manifestações, que vinham sendo preparadas pelo Fundo Nacional pela Democracia (NED), dos EUA. Criado durante o governo Reagan para realizar o serviço da CIA, que teve de recuar ao ter exposta sua influência sobre conflitos em diversos países asiáticos, africanos e sul-americanos, o fundo capitalizava as estruturas da oposição ao governo de Yanukovych e instrumentalizava suas ações midiáticas.

Em 2014, a praça Maidan, em Kiev, tornou-se o palco principal dos conflitos que enfim derrubaram o presidente eleito Víktor Yanukovich, colocando no poder o presidente Petro Poroshenko, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e ex-ministro do Comércio e Desenvolvimento Econômico, e o primeiro-ministro Arseniy Yatsenyuk, um jovem banqueiro. A Ministra de Finanças, Natalia Yaresko, era ex-diplomata americana e teve de se nacionalizar para ocupar o cargo. Esse processo transformou paramilitares neonazistas em heróis nacionais, elegendo para cargos políticos várias dessas lideranças.

As chagas abertas pelo Ocidente

Em 2015, foi realizado o “Comitê para o Futuro da Ucrânia”, que contou com a presença de investidores europeus e norteamericanos, dentre eles um ex-diretor da CIA que passou a atuar no setor privado fornecendo armas para Ucrânia.

Durante as manifestações, políticos e congressistas norte-americanos estiveram presentes, incitando a população a se opor aos resultados das eleições. A embaixada americana recebia diariamente os manifestantes extremistas, ao mesmo tempo em que se dizia empenhada em auxiliar a resolução dos conflitos através de negociações pacíficas. Chegou a ser vazada uma ligação telefônica, entre a então chefe do governo dos EUA para assuntos europeus e o embaixador americano em Kiev, na qual tramavam abertamente um golpe de estado.

A compreensão da história recente ucraniana expõe as chagas abertas pelo apoio ocidental a grupos neonazistas do país, impulsionado por interesses político-econômicos. O flagelo atual imposto aos refugiados do país, em especial àqueles não-brancos, é resultado direto da ação euroatlântica sobre a Ucrânia. É, assim, necessário estarmos atentos ao discurso da mídia ocidental que denuncia violações humanitárias, pois tendem a ocultar contradições importantes, omitindo aspectos estruturais das crises para proteger os interesses do imperialismo. A comoção pelo sofrimento humanitário de uma guerra não pode servir de instrumento para nos distrair de suas verdadeiras causas.

Um comentário

  1. Muito boa reportagem. Traz informações importantes para entendermos o que acontece hoje na Ukrania e como o ocidente não tem preocupação com real com direitos humanos.

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