A saúde psíquica na pandemia

Os transtornos mentais são um um problema de saúde pública, grande parte deles é determinada pelas condições de trabalho. Se a pandemia aprofundou as mazelas sociais, quem trabalha com saúde se viu especialmente afetado por ela

por Ângelo Barreto

Os transtornos mentais são considerados um problema de saúde pública e apresentam importância significativa na sociedade. Estima-se que os países destinem à saúde mental o equivalente a 2% dos gastos gerais com saúde. Contudo, um bilhão de pessoas (12,5% da população global) vivenciam algum sofrimento mental no mundo e 5% dos adultos em todo mundo sofrem de depressão, conforme dados publicados na relatoria da 150ª reunião do Conselho Executivo da Organização Mundial da Saúde (OMS) em janeiro de 2022. A mesma OMS divulgou um resumo científico, na primeira semana de março deste ano, constatando que a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou 25% no primeiro ano da pandemia de Covid-19, e entre os principais atingidos estão as mulheres, os jovens e as pessoas com saúde debilitada.

Além disso, um estudo liderado pela Universidade do Chile e pela Universidade de Columbia (EUA), com colaboração da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em 2022, revelou que trabalhadores/as de saúde de onze países latino-americanos apresentaram altas taxas de sintomas depressivos, pensamentos suicidas e sofrimento psíquico. Nele, estima-se “que entre 14,7% e 22% dos trabalhadores de saúde entrevistados em 2020 apresentaram sintomas que levaram à suspeita de um episódio depressivo, enquanto entre 5% e 15% dos trabalhadores disseram que pensaram em cometer suicídio”.

No caso do Brasil, a situação pode ser ainda pior. Em 2017, a OMS publicou uma pesquisa intitulada “Depressão e outros transtornos mentais comuns” na população mundial, na qual o país apareceu como o líder mundial em prevalência de ansiedade e ocupando o quinto lugar em prevalência de depressão.

A crise pandêmica aprofundou as mazelas sociais manifestadas pelo capitalismo, impactando diretamente nas condições de vida e trabalho da população, ampliando os índices globais de mortalidade, de desemprego, de pobreza, de fome etc., além de ampliar o grau de exploração de trabalhadores/as e intensificar as desigualdades de classe, raça e gênero na sociedade como um todo, como apontam os estudos de Ricardo Antunes, John Batchell, Alysson Mascaro e vários outros.

A saúde de quem trabalha na saúde

Nesse cenário, as pessoas que trabalham na saúde foram especialmente afetadas. Projetos como o Observa Covid e Rede CoVida mostram a situação particularmente preocupante daqueles que atuam nos estabelecimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) ou cuidam de pessoas com Covid-19, principalmente os que se encontram na linha de frente do combate à pandemia, garantindo o funcionamento dos leitos, além dos atendimentos ambulatoriais na Atenção Primária à Saúde (APS) e na atenção especializada.

De acordo com “Carta aberta dos trabalhadores da saúde atuantes nas UBS do município de São Paulo”, publicada em janeiro deste ano, são muitos os problemas vivenciados por trabalhadores/as no curso da emergência sanitária de Covid-19, entre os quais pode-se citar: a sobrecarga de trabalho; o número reduzido de profissionais; o aumento exponencial do número de atendimentos; a ampliação da jornada de trabalho (sem a devida remuneração das horas extras); o acúmulo de funções; a adição de atividades extras nas rotinas de alguns profissionais, com manutenção da cobrança de metas (de maneira truculenta) de atividades habituais; a realocação de profissionais, deixando setores específicos com sobrecarga e a população sem atendimento adequado.

Em paralelo à superexploração da força de trabalho na saúde, questiona-se também a falta de insumos mínimos para o atendimento da população (por exemplo: medicamentos essenciais para o tratamento das infecções; lençol para maca hospitalar; oxigênio; luvas; testes de gravidez e espéculos vaginais etc.).

Estes e outros aspectos acabam por comprometer a segurança e a saúde nos ambientes de trabalho, gerando adoecimento e mortes, bem como problemas de saúde mental associados às condições de trabalho, ao medo de contaminar-se e contaminar familiares e amigos, ansiedade, distúrbios de sono e/ou alimentares e depressão vinculada ao estresse decorrente do trabalho cotidiano, especialmente da atenção e do cuidado dispensado a pessoas com Covid-19.

Os fatores que contribuem para o desenvolvimento e piora do sofrimento mental (mas também das condições de vida e saúde de trabalhadores/as como um todo) perpassam as dimensões econômicas, sociais, ambientais, culturais, fisiológicas etc.. Afinal, são fatores historicamente determinados pelo modo de produção capitalista. Nesse sentido, compreender a noção de “determinação social da saúde”, que considera a saúde enquanto elemento constitutivo do modo de produção capitalista, é também entender a sua determinação material por condições conjugadas na totalidade deste sistema.

Vale reafirmar a necessidade da luta constante pelo acesso a um SUS público, estatal em sua totalidade, universal e de qualidade, que contribua com as bases de um projeto de sociedade da classe trabalhadora que rompa com a ordem do capital. Cabe ressaltar a importância de se desenvolver as lutas sindicais e populares, por meio de greves, paralisações e manifestações, para derrotar o governo Bolsonaro, combater as manifestações e consequências do sistema do capital, e avançar na construção do Poder Popular e do Socialismo.

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